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Política

JK e as lições deixadas pelo estadista ao Brasil

Juscelino não tinha preconceitos ideológicos: ouvia opiniões discordantes e não se importava com a orientação filosófica ou doutrinária do interlocutor. Queria informar-se com opositores e seduzir adversários

Públicado em 

24 out 2020 às 05:00
Evandro Milet

Colunista

Evandro Milet

Posse de Juscelino Kubitschek como presidente da República e de João Goulart como vice, em 1956
Posse de Juscelino Kubitschek como presidente da República e de João Goulart como vice, em 1956 Crédito: Arquivo Nacional
O governo JK foi um intervalo de relativa estabilidade entre períodos estressantes da política nacional. Eleito com 33,8% dos votos (não havia segundo turno) teve de governar sem maioria no Congresso e com uma oposição que vinha de tentativa de golpe militar para derrubar Getúlio e impedir a sua própria eleição e posse, motivada principalmente pela presença do PTB de João Goulart na chapa como vice presidente. Essas e outras histórias são contadas no livro "JK — O artista do impossível", de Cláudio Bojunga.
Muitas vezes se vê hoje comentários na internet, de pessoas que desconhecem a história, argumentando que antigamente a imprensa relatava apenas fatos e hoje procura indevidamente analisar acontecimentos e emitir opinião. Carlos Lacerda era jornalista e com seus artigos demolidores foi adversário ferrenho de JK e mais ainda de Getúlio, sendo causa imediata do seu suicídio.
Getúlio era anticapitalista, confiava mais no Estado que na sociedade e dava precedência à política sobre a economia. JK aceitava de bom grado a desordem capitalista, nunca teve preconceito contra o lucro e sobrepunha a economia à política.
Juscelino era um sedutor como político. San Thiago Dantas dizia que ”quem quiser ser inimigo de Juscelino deve ficar pelo menos a seis léguas de distância. O homem é uma pilha de simpatia humana". Não tinha preconceitos ideológicos: ouvia adversários e opiniões discordantes e não se importava com a orientação filosófica ou doutrinária do interlocutor. Queria informar-se com opositores e seduzir adversários.
Ulysses Guimarães dizia que “o homem público, sobretudo o Presidente, não pode ser amargo, ressentido. A vida pública se faz com felicidade e alegria — e Juscelino era homem feliz e alegre.” Democrata convicto dizia: “Quero a imprensa desatada, mesmo para ser injusta comigo.”
Imaginem como foi possível, em situação de minoria, aprovar a construção de Brasília e a mudança da capital. A oposição só aprovou porque não acreditou que seria possível e que JK encontraria no cerrado o seu “túmulo político”. Brasília custou caro — a inflação foi a 30,5% em 1960 —,  mas provocou a integração geográfica do país, ainda mais com a construção da Belém–Brasília, outra iniciativa sua.
JK fez um governo de realizações impressionantes, fora construir uma cidade inteira em cinco anos. Energia era uma obsessão. Encontrou 7 bilhões de m3 de água represada e deixou 82 bilhões. Construiu 20 mil quilômetros de estradas e pavimentou 5.600 quilômetros de rodovias já existentes. Entre 1956 e 1960 a economia teve taxa de crescimento de 8,1% ao ano, chegando a 10,8% em 1960. A participação da indústria no PIB passou de 20,4% em 1955 para 25,6% em 1960.
Abriu a economia para participação estrangeira, inclusive para a indústria automobilística, em uma época onde a Ford se aferrava a um relatório suspeito segundo o qual não seria possível fundir um motor à explosão nos trópicos. Entendia também que o desenvolvimento físico do país demandava ser complementado pelo desenvolvimento cultural. Foi um dos períodos de maior efervescência cultural que explodiu depois na música, no cinema e nas artes em geral. O social também avançou e no pico o salário mínimo chegou a 185 dólares em 1959.
Para conseguir a adesão dos brasileiros, JK se transformou em missionário da refundação do país. Circulava de avião pelo país, muitas vezes em situações perigosas. Inspecionava rodovias e hidrelétricas, conversava com operários no canteiro de obras e explicava periodicamente ao país o andamento dos trabalhos. O ex-senador Eduardo Suplicy diz que o seu primeiro professor de desenvolvimento econômico, ainda adolescente, foi JK explicando didaticamente seu Programa de Metas na TV. Esse é um grande papel do estadista: conversar, motivar, explicar e convencer.
Na biografia falta aquilo que faltou sempre aos governantes brasileiros, a prioridade na educação. Mas JK teve papel fundamental na história do país.
Candidatíssimo para presidente em 1965, foi cassado e teve os direitos políticos suspensos em 1964, assim como líderes de direita do movimento como Carlos Lacerda, também candidato, que os militares entendiam como ameaças. Muito tempo depois, perguntado sobre o porquê da cassação sem motivo, o presidente Figueiredo, revelando a baixeza desse período de inquisição política, foi sucinto: “porque Costa e Silva quis”.
O governo JK foi um período de glória para a autoestima nacional. Nelson Rodrigues resumiu ao seu jeito o significado de JK: "[...] ele sacudiu dentro de nós insuspeitadas potencialidades. A partir de Juscelino surge um novo brasileiro."

Evandro Milet

É consultor e palestrante em Inovação e Estratégia. Neste espaço, novidades e reflexões sobre mercado de trabalho e tecnologia têm sempre destaque.

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