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É consultor e palestrante em Inovação e Estratégia. Neste espaço, novidades e reflexões sobre mercado de trabalho e tecnologia têm sempre destaque. Escreve aos sábados

As mídias sociais enganariam Alan Turing, pai da computação

GPT-3, recente sistema de Inteligência Artificial (IA) para produção e compreensão de linguagem escrita, retrata o estágio em que a humanidade se encontra, incluindo a disseminação de fake news

Publicado em 19/12/2020 às 05h00
Atualizado em 19/12/2020 às 05h02
Inteligência artificial
Inteligência artificial: novo sistema GPT-3 tem limitações. Crédito: xb100/Freepik

A OpenAI, uma organização fundada por Elon Musk, lançou o mais potente sistema de Inteligência Artificial (IA) para produção e compreensão de linguagem escrita, o GPT-3. Muita gente imaginou que acabaria o emprego de escritores e jornalistas. Cientistas, porém, estão constatando as limitações da engenhoca.

Apesar da sofisticação, o novo sistema não sabe o que fala, embora seja um redator razoável: pode produzir qualquer tipo de texto, mas também pode cometer bobagens ao ignorar semântica, contexto, psicologia, convenções sociais, raciocínio lógico e até leis da física. Falta aquilo que nos torna humanos: bom senso. Afinal, ao ser alimentado com tudo o que há na internet, o GPT-3 retrata o estágio em que a humanidade se encontra, incluindo vieses racistas e sexistas e uma capacidade de criação e disseminação de fake news.

Nos anos 50, Alan Turing, um dos pais da ciência da computação e da inteligência artificial, criou o teste que leva seu nome. Seu objetivo é descobrir se uma inteligência artificial é inteligente a ponto de enganar um humano, fazendo-o acreditar que se trata de uma pessoa respondendo às suas perguntas. Se 30% dos humanos consultados acreditarem que se trata de outro humano, a máquina passa no teste de Turing.

Ora, mais de 30% dos humanos reconheceriam hoje o GPT-3 como uma pessoa se comunicando nas redes sociais. Afinal, é fácil encontrar ali raciocínios tortuosos, negações de verdades científicas, interpretações contorcionistas de textos, elaborações fantásticas para teorias da conspiração, justificativas fora de contexto, vieses racistas e sexistas, fake news esdrúxulas, enfim, falta total de bom senso - realmente, um triste retrato da humanidade.

Todos os dias recebemos textos estranhos, supostamente assinados pelo Veríssimo, Jabor ou Clarice Lispector, e qualquer um acostumado com esses autores percebe imediatamente a fraude. Ou vídeos em que médicos e supostos especialistas, sem nenhuma relevância profissional, glorificam remédios sem efeito ou condenam criminosamente vacinas, máscaras ou distanciamento social. Ou recebemos avisos alarmados sobre uma suposta conspiração internacional globalista soros-sino-gramsciana que amedronta até mentes doentias no governo. 

Cabeças estacionadas na década de 1950 enxergam iminentes invasões da Amazônia atrás de nossos recursos naturais sem perceber que os recursos mais valiosos hoje estão no conhecimento. E esse conhecimento está se perdendo no flagelo da educação brasileira, no desprezo da bioeconomia e indo embora na diáspora dos nossos estudantes e cientistas brilhantes contratados no exterior. Por analogia do nome, a Amazon, que negocia com bits e bytes e gerencia conhecimento, tem valor de mercado 25 vezes maior que a nossa Vale, especialista em minérios.

O GPT-3 deve se sentir em casa com tanta falta de bom senso. Se Turing fosse vivo e se baseasse nas postagens das mídias sociais, teria que inventar outro teste, o GPT-3 passaria por humano.

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