Neste mês recebemos, atônitos, a notícia de três vítimas de “balas perdidas” no Espírito Santo. No dia 17, um garoto de apenas 2 anos morreu após levar um tiro no bairro Rio Marinho, em Vila Velha. Segundo relatos, mais de cem tiros foram ouvidos nas redondezas de onde partiu o disparo fatal. Cerca de 30 traficantes teriam transformado uma parte do bairro em uma verdadeira praça de guerra. O resultado, além da insegurança que assombra a todos, foi mais uma família esfacelada diante de uma perda trágica e irreparável.
No sábado (19), outras 3 pessoas também foram atingidas por “balas perdidas”. No Ibes, em Vila Velha, uma estudante de Direito de 31 anos foi alvejada e morta por dois criminosos que estavam em uma motocicleta. Os tiros também atingiram um homem de 34 anos (com um tiro na perna) e outro de 23 anos (ferido com 3 disparos).
No domingo (20), em Barramares, uma dona de casa de 42 anos foi atingida por um tiro nas costas disparado num confronto entre bandidos e policiais. A vítima, que tinha quatro filhos, não resistiu aos ferimentos e morreu no mesmo dia.
No final de semana, os jornais noticiaram sangrentos confrontos entre traficantes no bairro Planalto Serrano, na Serra. Foram dois dias seguidos de tiroteios que acabaram resultando na morte de um indivíduo (possivelmente envolvido na guerra do tráfico) alvejado com mais de 40 tiros. Na madrugada de sexta-feira (18), no mesmo local, outro homem havia sido encontrado morto com mais de 50 tiros pelo corpo.
Obviamente, os dois últimos casos estão muito longe de se tratar de “balas perdidas”, no entanto, guardam estreita relação com os demais. Não é necessário ser expert para perceber um cenário de grande insegurança, onde traficantes e outros criminosos sentem-se à vontade para transformar em campos de guerra nossas vias urbanas.
Ponto que chama atenção é a fartura de munições em poder dos criminosos. Eliminar um traficante rival com 50 tiros tem um alto custo e tem o objetivo de transmitir algumas mensagens. Os territórios são conquistados pelo poderio bélico das organizações criminosas que, ao esbanjar disponibilidade de armas e munições, espalham o terror e impõem o domínio da violência.
Nessa história escrita com sangue as vítimas de “balas perdidas” e as vítimas de muitas e muitas balas são sintomas de uma doença que se alastra e que aos poucos vai matando as pessoas e a sensação de segurança de nossas cidades. O problema é extremamente complexo e, obviamente, demanda soluções complexas. As polícias têm feito, com grande competência, tudo que está ao seu alcance. A complexidade da questão, no entanto, demanda ações que vão muito além da atuação policial ordinária.
No médio e longo prazo é crucial o investimento em políticas sociais que afastem os jovens do mundo do crime. Geração de emprego, renda, esportes e políticas de assistência social são caminhos que funcionaram em outros locais e que, portanto, precisam ser perseguidos a todo custo.
No curto prazo é necessário inovação e, principalmente, cooperação entre as agências. Sensível ao drama vivido em alguns Estados do país, a Polícia Federal tem proposto a criação de forças-tarefas para combater a criminalidade violenta e atuar na descapitalização das organizações criminosas.
No Espírito Santo, PF, PRF e guardas municipais de Vitória, Vila Velha e Serra estão imbuídas de realizar esse papel. De novembro até agora foram 16 criminosos presos, drogas apreendidas, armas retiradas das ruas, cédulas falsas e muitos bens retirados dos marginais.
São resultados animadores (especialmente por se tratar de uma inovação com cerca de quatro meses de funcionamento), que tendem a melhorar. Certamente não é (e nem tem pretensão de ser) a solução para todos os problemas da insegurança que, como já dito, demandam intervenções altamente complexas de curto, médio e longo prazo. Nesse contexto algumas mudanças legislativas certamente são bem-vindas.
Enquanto isso não acontece, porém, nos resta (como profissionais de segurança pública) “arregaçar as mangas” e trabalhar incansavelmente com todos os instrumentos disponíveis. É fundamental que as investigações sejam cada vez mais robustas e estruturadas, entregando aos demais atores da persecução penal elementos suficientes para responsabilizar todos os integrantes das organizações criminosas. É isso que a sociedade espera de nós e é para isso que somos pagos.