Febre, manchas na pele e preocupação. Nos últimos meses, dois acontecimentos chamaram a atenção: o aumento dos casos de sarampo em São Paulo e o alerta para o aumento de varicela, conhecida como catapora, em Guarapari.
As duas doenças são causadas por vírus e podem provocar febre e manchas, mas não são a mesma coisa: as formas de transmissão, os sintomas e as medidas de controle são diferentes.
O que elas têm em comum é uma questão fundamental para a saúde pública: quando existem pessoas suscetíveis, os vírus encontram oportunidade para circular infectando de pessoa a pessoa.
O sarampo é uma das doenças infecciosas mais contagiosas que existem. O vírus é transmitido principalmente pelo ar e por secreções respiratórias. Uma pessoa infectada pode transmitir o vírus antes mesmo de saber que está doente.
Os sintomas geralmente começam com febre, tosse, coriza e olhos avermelhados. Depois aparecem as manchas vermelhas, que costumam começar no rosto e se espalhar pelo corpo. A doença pode causar complicações, principalmente em crianças pequenas, com consequências neurológicas, e causar morte.
Em 2026, São Paulo passou a registrar uma cadeia de transmissão relacionada à importação do vírus, que é quando alguém infectado com o vírus entra no país. No início de agosto, o estado já contabilizava 23 casos confirmados, sendo 16 de pessoas já identificadas que não estavam com a vacinação em dia.
O Brasil recuperou a certificação de eliminação da circulação do sarampo em 2024. Isso não significa que nenhum caso possa ocorrer. Pessoas podem viajar, adquirir o vírus em outros países e trazê-lo para o Brasil. O desafio é impedir que um caso importado encontre pessoas suscetíveis e dê origem a uma transmissão sustentada.
O próprio Ministério da Saúde ressalta que casos importados ou isolados não significam, por si só, o retorno da transmissão endêmica, mas exigem vigilância e altas coberturas vacinais e aí que a cobertura que está muito baixa em SP, menos de 70% causa preocupação
Já a varicela, ou catapora, também é causada por um vírus, mas é provocada pelo vírus varicela-zóster, e não pelo vírus do sarampo.
O quadro mais conhecido é o aparecimento de pequenas bolhas que coçam, que podem surgir em diferentes partes do corpo e, posteriormente, formar crostas. Também pode haver febre e mal-estar. A doença é contagiosa e pode se espalhar rapidamente em locais onde muitas pessoas convivem próximas, como escolas, creches e instituições coletivas.
No Espírito Santo, a situação já vinha sendo acompanhada pela Secretaria de Estado da Saúde. Até o primeiro semestre de 2026, tinham sido confirmados 98 casos de varicela no estado, distribuídos por diferentes regiões, com surtos registrados em alguns municípios.
Na última semana um alerta de aumento de casos em Guarapari chamou a atenção e deve ser entendido dentro de um cenário maior de vigilância da varicela no Espírito Santo.
Apesar de as duas doenças provocarem febre e manchas na pele, há diferenças importantes e por isso, uma pessoa com os sintomas deve procurar avaliação de um profissional de saúde, especialmente se houver outros, contato com alguém doente ou histórico de viagem.
Quanto mais rápido um caso suspeito é identificado, mais rapidamente a vigilância pode investigar os contatos e adotar medidas para interromper a transmissão. No sarampo, isso é particularmente importante porque a doença se espalha com enorme facilidade. Na varicela, a identificação precoce também permite investigar a existência de outros casos em escolas, creches e ambientes coletivos e avaliar a necessidade de medidas de controle.
A vacinação é uma das principais ferramentas de prevenção. Mas vacinação e vigilância epidemiológica são complementares. A vacinação reduz o número de pessoas suscetíveis. A vigilância identifica rapidamente quem adoeceu, procura seus contatos, acompanha a circulação do agente infeccioso e permite agir antes que uma cadeia de transmissão se transforme em um surto maior.
É como construir uma barreira: a vacina diminui as portas de entrada; a vigilância identifica rapidamente quando alguma porta foi ultrapassada e implanta medidas para minimizar o espalhamento.
No caso do sarampo, São Paulo está justamente intensificando essa barreira. A capital iniciou em 3 de agosto uma campanha de multivacinação e intensificação contra o sarampo, com oferta ampliada para pessoas de 6 meses a 59 anos. Para crianças de 6 a 11 meses, existe a chamada dose zero, uma dose adicional utilizada em situações epidemiológicas específicas; ela não substitui as doses previstas posteriormente no calendário de rotina. E em Guarapari houve uma ampliação da vigilância e da vacinação.
Os dois eventos apesar de independentes trazem uma mensagem comum e muito importante: doenças imunopreveníveis não desaparecem porque deixamos de vê-las.
Elas permanecem como uma ameaça quando existem pessoas suscetíveis e quando a vigilância deixa de funcionar adequadamente.
A experiência do sarampo mostra isso. Um vírus pode ser importado e encontrar pessoas sem proteção. A partir daí, aquilo que começou como um caso pode se transformar em uma cadeia de transmissão.
Por isso, manter altas coberturas vacinais não é apenas uma questão individual. É uma estratégia de proteção coletiva. E como eu já disse algumas vezes, não custa lembrar: vacinas salvam vidas!