A divulgação das estimativas globais de cobertura vacinal da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Unicef reforça uma importante mensagem: a recuperação da vacinação infantil é possível quando há políticas públicas consistentes, investimento contínuo e compromisso com a ciência.
Em um cenário mundial ainda marcado por milhões de crianças sem acesso às vacinas básicas, o Brasil passou a ser reconhecido como um dos países que mais avançaram na recuperação das coberturas vacinais.
Essa trajetória já havia sido analisada no editorial “Brazil’s Path to Vaccine Recovery and Leadership", publicado na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, onde descrevemos como o país reverteu um cenário de queda sustentada da vacinação entre 2016 e 2021. Nesse período, o Brasil perdeu a certificação de país livre do sarampo, registrou o retorno de doenças imunopreveníveis e passou a integrar a lista do Unicef dos dez países com maior número de crianças não vacinadas.
Segundo a publicação, a recuperação foi resultado de cinco estratégias estruturantes. A primeira estratégia foi o fortalecimento da governança e do financiamento do Programa Nacional de Imunizações (PNI).
O governo federal retomou os incentivos financeiros específicos para vacinação, destinando R$ 351 milhões para estados e municípios ampliarem campanhas, organizarem ações locais e aumentarem o acesso da população às vacinas.
A segunda estratégia foi a implantação do monitoramento das estratégias de vacinação. Mais de 1,55 milhão de domicílios foram visitados para identificar crianças não vacinadas, reconhecer barreiras de acesso e corrigir problemas em tempo real. Como resultado, foi observada cobertura de 91,6% para duas doses da vacina contra o sarampo nas áreas monitoradas.
A terceira estratégia consistiu na expansão da vacinação nas escolas. Entre 2023 e 2024, foram investidos R$ 150 milhões, permitindo que 3.710 municípios implementassem ou fortalecessem essa estratégia, aproximando a vacinação de crianças e adolescentes.
A quarta estratégia, considerada um dos maiores avanços do período, foi a transformação digital do SUS. A integração da Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) com o Cadastro Nacional de Usuários do SUS, utilizando o CPF como identificador único, passou a permitir o registro nominal de cada dose aplicada, o acompanhamento individual do histórico vacinal e o monitoramento em tempo real das coberturas.
Essa inovação fortaleceu a vigilância epidemiológica, aumentou a transparência e qualificou a gestão do Programa Nacional de Imunizações.
A quinta estratégia foi o enfrentamento da desinformação por meio do programa Saúde com Ciência, que ampliou a comunicação baseada em evidências, fortaleceu a confiança da população nas vacinas e colocou o combate às fake news como parte da política nacional de imunização.
Metas atingidas
Os resultados dessas ações foram concretos. A cobertura da primeira dose da vacina tríplice viral voltou a atingir 95% em 2024, alcançando novamente a meta do Programa Nacional de Imunizações pela primeira vez em quase uma década.
O Brasil recuperou a certificação de país livre da circulação endêmica do sarampo, da rubéola e da síndrome da rubéola congênita e deixou de integrar a lista do Unicef dos países com os piores indicadores de vacinação infantil.
Os dados mais recentes da OMS e do Unicef confirmam internacionalmente essa recuperação. O relatório mostra que, em 2025, 90% das crianças do mundo receberam a primeira dose da vacina DTP (DTP1) e 85% completaram as três doses (DTP3).
Embora esses números representem uma melhora em relação ao ano anterior, o avanço global ainda é insuficiente e permanece abaixo dos níveis observados antes da pandemia.
O relatório também alerta que 13,5 milhões de crianças continuam “zero dose”, sem receber qualquer vacina no primeiro ano de vida, e que milhões de outras iniciam, mas não completam o calendário vacinal.
Em relação ao sarampo, a cobertura mundial permanece em 84% para a primeira dose e 77% para a segunda dose, muito distante dos 95% necessários para interromper a circulação do vírus. Como consequência, 57 países registraram surtos significativos de sarampo em 2025, evidenciando que a recuperação global ainda é desigual.
É justamente nesse contexto que a experiência brasileira ganha relevância internacional. Enquanto muitos países ainda enfrentam dificuldades para reconstruir seus programas de imunização, o Brasil demonstrou que uma estratégia integrada combinando financiamento, fortalecimento da Atenção Primária à Saúde, vacinação nas escolas, monitoramento ativo, transformação digital e comunicação baseada em evidências pode reverter rapidamente a queda das coberturas vacinais.
Entretanto, tanto o editorial quanto o relatório da OMS e do Unicef convergem em uma mesma conclusão: recuperar é diferente de sustentar. Persistem desigualdades regionais, barreiras de acesso aos serviços, crianças em situação de vulnerabilidade, hesitação vacinal e desinformação.
Esses desafios reforçam que a recuperação da cobertura vacinal não pode ser compreendida como um resultado pontual, mas como um processo contínuo que exige investimento sustentável, fortalecimento do SUS, valorização do Programa Nacional de Imunizações, inovação tecnológica, vigilância epidemiológica qualificada e comunicação baseada em evidências.
O reconhecimento internacional alcançado pelo Brasil demonstra que esse caminho produz resultados concretos. O compromisso, agora, é transformar essa recuperação em uma conquista permanente, assegurando coberturas homogêneas e garantindo que nenhuma criança, independentemente de onde viva, fique sem a proteção que as vacinas oferecem.