Confesso que meu otimismo diminuiu bastante. Ao contrário da minha última coluna, em que estive realmente muito otimista. É inevitável: a realidade se impõe. Tivemos, nas últimas duas semanas, um aumento médio de mais de 300% no número de pessoas com teste positivo para Covid-19 no Espírito Santo. Muitas pessoas próximas a mim e, certamente, próximas a você, ou você mesmo, se contaminaram nas últimas duas semanas. E o que isso significa?
Significa o que temos falado desde que os primeiros dados da variante Ômicron surgiram: ela é altamente transmissível. As múltiplas mutações na proteína S fizeram com que ela escapasse da vacina diminuindo muito a efetividade para infecção, aquela doença mais leve. Felizmente, as vacinas ainda continuam protegendo contra doenças mais graves e fatais.
No entanto, os serviços de saúde se encontram lotados, os profissionais na linha de frente de atendimento estão exaustos depois de dois anos cumprindo longas jornadas, plantões estressantes, filas e filas intermináveis de atendimento e ainda tendo que enfrentar a violência daqueles que buscam o atendimento – também exaustos e desgastados pelo contexto pandêmico - que custam a compreender que o profissional de saúde não é responsável pelo colapso que estamos vivendo.
Mas então quem é? Neste momento é preciso dar o nome aos bois. São responsáveis todos que, depois de dois anos, não compreendem que precisam usar máscara em locais com outras pessoas. São responsáveis aqueles que ainda não se vacinaram (e podem se vacinar), que têm vacinas em estoque e não as doam para os países sem vacinas e, principalmente, são responsáveis aqueles que espalham desinformação.
No dia 15/12/2021, publiquei um desabafo que “viralizou” nas redes sociais: “Depois de dois anos, mais de 620 mil óbitos no Brasil e mais de 5 milhões no mundo, não tenho mais paciência com pessoas sem máscara (ou com o nariz de fora) e muito menos com os antivacinas. São um atraso para a humanidade.”
Depois de receber o milionésimo vídeo de um antivacina por uma pessoa pedindo para eu contra-argumentar, realmente, a paciência se esgotou. Refleti de que forma eu e tantos outros colegas ainda não tínhamos falado, o que ainda restava para convencer ou onde a mensagem ainda surtiria algum efeito? Por mais estranho que possa parecer, as pessoas que circulam o material são instruídas, não têm dificuldade para acessar qualquer informação e mesmo assim divulgam conteúdos completamente mentirosos.
Então, vamos lá em mais uma tentativa de elucidar os fatos: Os antivacinas sugerem que as vacinas de RNA mensageiro injetam “DNA alienígena” - ou talvez de jacaré - nas pessoas e vão levar a alterações do DNA dos vacinados. Tal afirmação é absolutamente mentirosa, visto que essas vacinas não usam DNA (ácido desoxirribonucleico), mas um pedaço da sequência de RNA (ácido ribonucleico) do vírus já inativado, para que seja inofensivo ao nosso organismo.
Ao apresentar-se às nossas células, elas passam a produzir pedacinhos inofensivos da proteína Spike (S), para ensinar o sistema imune a reconhecer a proteína S do vírus real, caso tenhamos contato com ele no futuro. Como eu tenho explicado, é como se fornecêssemos um retrato falado do vírus para nosso sistema de defesa, que uma vez treinado e memorizado o retrato falado, pode então reconhecer o vírus real, selvagem, aquele que provoca doença.
Após treinarem nosso sistema imune para reconhecer o inimigo e produzir anticorpos e células de memória, esses fragmentos de proteína S são eliminados do organismo. Inúmeros estudos mostram que o pedacinho da sequência de RNA mensageiro do vírus usado nas vacinas não entra no núcleo das células, sendo impossível modificar o DNA e provocar alterações genéticas.
Também é oportuno pontuar: nem o vírus original, aquele que de fato provoca a doença, é capaz de mudar nosso DNA. Ele infecta o nosso organismo, coloca seu RNA inteiro nas nossas células, se multiplica para produzir milhões de cópias dele mesmo, de seu material genético, de seu RNA. Mas nem mesmo o SARS-CoV-2 consegue mudar o nosso DNA.
No entanto, quando o vírus se replica no organismo, produzindo milhões de cópias dele mesmo, isso pode gerar mutações. Imagine da seguinte forma: é como se você copiasse a mesma coisa muitas vezes, com milhões de repetições. Em uma hora ou outra, vai cometer algum erro, uma pequena mudança. É isso que o vírus que provoca doença no nosso organismo pode fazer. As temidas mutações que podem gerar novas variantes.
É isso que devemos temer: o vírus, sua evolução e onde ele pode nos levar se deixamos ele se replicar livremente. Enquanto escrevo esta coluna, no mundo já foram administradas mais de 9 bilhões de vacinas contra a Covid-19. Algumas pessoas já receberam 4 doses em países ricos, algumas, em países pobres, não receberam nenhuma.
Outro dado importante que circula nos grupos antivacinas: que as vacinas estão causando miocardite em crianças e adolescentes. Os raríssimos casos de miocardite –12 ocorrências relatadas em 8 milhões de crianças vacinadas nos EUA – foram leves e todos com evolução favorável. As crianças ESTÃO BEM. Vacinas são seguras e eficazes. Os estudos indicam que o risco de miocardite causada quando a criança tem Covid-19 é de QUATRO A SEIS vezes maior do que o associado à vacina.
Isso funciona para adultos, adolescentes e crianças. O mecanismo é o mesmo. Portanto, vacine sua criança assim que for possível. Da mesma forma que você se protegeu, agora é hora de proteger a geração do futuro. Ensinando às crianças o papel delas para vencermos as doenças. Vacinação é estratégia coletiva, quanto mais pessoas vacinadas, mas diminuímos a circulação do vírus e menos chance ele tem de fazer mutações. Portanto, tenha medo da doença e busque a vacina para sua criança!
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Enquanto isso, os que não se vacinam, quando podem fazê-lo, são fonte para replicação do vírus. Você, que não se vacinou por opção deliberada, está mantendo a pandemia por mais tempo, está colocando nossas vidas em risco e representa um atraso para a humanidade.
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