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Doutora em Epidemiologia (UERJ). Pós-doutora em Epidemiologia (Johns Hopkins University). Professora Titular da Ufes. Aborda nesta coluna a relação entre saúde, ciência e contemporaneidade

Precisamos mudar o retrato que estamos revelando nesta pandemia

Sem a esperança da vacinação em massa, resta-nos o confinamento, para desacelerar a transmissão da doença. É preciso se importar com o outro

Publicado em 01/04/2021 às 02h00
Confinamento durante a pandemia
Confinamento durante a pandemia. Crédito: Freepik

“Eu não tinha este rosto de hoje / Assim calmo, assim triste, assim magro, / Nem estes olhos tão vazios, /Nem o lábio amargo. / Eu não tinha estas mãos sem força, / Tão paradas e frias e mortas; / Eu não tinha este coração / Que nem se mostra. / Eu não dei por esta mudança, / Tão simples, tão certa, tão fácil: / — Em que espelho ficou perdida / a minha face?”

Com os lindos versos tristes de Cecilia Meireles inicio hoje esta coluna. Em que espelho ficou perdida nossa face quando já não conseguimos contar nossos mortos? E quando estamos diante do caos?

Estamos diante da maior crise sanitária de todos os tempos no Brasil. O colapso do serviço de saúde pode ser mensurado pela falta de leitos para a internação de pessoas que evoluem como um quadro de maior gravidade. Conforme observamos em outros países, e recentemente em Manaus, pessoas em fila de espera para um leito hospitalar.

Mas o colapso não atinge apenas as pessoas que foram acometidas pela Covid-19. Ele se estende às pessoas que precisam de internação por outras causas como enfarte, acidente de trânsito e cirurgias de grande porte. O colapso atinge o serviço público e a saúde suplementar e, mesmo que se tenha dinheiro para pagar para todo o tratamento, não haverá leito disponível. Esse é o caos que estamos enfrentando aqui e agora.

Em meio ao caos há a exaustão. Profissionais de saúde que estão já há um ano em longas jornadas, trabalhando com alto risco de se infectarem. No Brasil, eles formam o grupo profissional que mais morreu durante a pandemia. A falta de equipamento adequado de proteção conjugada às extensas jornadas de trabalho cobraram uma dura conta.

Mesmo agora, com as vacinas, os cuidados precisam continuar. O vírus ainda circula de forma muito acelerada, e até que 70% da população esteja vacinada, precisaremos seguir com rigor as medidas de prevenção.

Em meio a tudo isso, surge a esperança da diminuição do número de óbitos entre as pessoas vacinadas, como vemos nas notícias que chegam de Israel e do Estados Unidos. Um estudo divulgado pela Pfizer e o governo de Israel, feito com profissionais de saúde israelenses e publicado na revista científica "The Lancet", demostrou a redução da transmissão do vírus. E a vacina também diminuiu em 85% os casos sintomáticos de Covid-19.

Em uma análise de profissionais de saúde no Texas, as pessoas que foram infectadas diferiram de acordo com o estado de vacinação, com infecções em 234 de 8.969 funcionários não vacinados, 112 de 6144 funcionários parcialmente vacinados, e 4 de 8121 funcionários totalmente vacinados, sendo essa diferença estatisticamente significativa. Outro estudo revelou que apenas 502 pessoas com mais de 65 anos foram hospitalizadas por Covid na semana que acabou em 13 de março, uma queda de cerca de 85% em relação à semana que terminou em 9 de janeiro.

Mais de 38 milhões de pessoas nesse grupo, ou quase 70% dos maiores de 65 anos, já receberam ao menos uma dose de uma das três vacinas autorizadas nos EUA, enquanto a vacinação completa já foi aplicada em 43% dessa população.

Mas enquanto essa realidade está muito longe de nós, resta a esperança de atingirmos uma população maior e começarmos as ver essas mudanças por aqui também. Sem a esperança da vacinação em massa, nos resta o lockdown, ou confinamento, para desacelerar a transmissão da doença. O vírus circula com pessoas infectadas que muitas vezes nem sabem que se infectaram. Podem estar no período pré-sintomático ou serem assintomáticas.

Diminuir a circulação de pessoas reduz a chance de que elas transmitam o vírus enquanto se deslocam pela cidade. No entanto, só veremos o pleno funcionamento dessa medida quando avaliarmos a quantidade de novos casos por dia. Números expressivos de casos novos poderão se refletir em muitas internações e óbitos nas próximas duas ou três semanas. Diminuir esse número de casos é nossa tarefa enquanto a vacina não chega para todos.

O Brasil tem pressa de se vacinar. Só a vacina poderá mudar o quadro de forma definitiva e possibilitar a saída com segurança da pandemia. Precisamos mudar o retrato que estamos refletindo. É preciso se importar com o outro, é preciso dar sentido a tantos que perderam suas vidas e ficarmos atentos ao nosso papel na transmissão do vírus. É preciso combinar esforços e pensamentos em favor da vida. É hora de união.

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