O Dia dos Direitos Humanos, celebrado em 10 de dezembro, marca a adoção da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela ONU em 1948, influenciada pelas atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial. Mais de sete décadas depois, os princípios ali consagrados - liberdade, igualdade e dignidade - enfrentam uma era de tensão. O planeta vive um acúmulo de crises interligadas: climática, geopolítica, econômica e institucional. Cada uma delas revela, à sua maneira, o quanto o projeto humanista do pós-guerra está em risco.
A crise climática é o retrato mais dramático dessa era de incerteza. Enchentes devastadoras, incêndios florestais e secas prolongadas não são apenas catástrofes naturais: são fruto da nossa relação extrativista e exploratória com o planeta, e também violações de direitos humanos.
O colapso ambiental atinge de forma desigual: populações indígenas, quilombolas, ribeirinhas e periféricas sofrem primeiro e de forma mais intensa. Os chamados refugiados climáticos, ainda sem reconhecimento jurídico, simbolizam o fracasso coletivo em proteger o direito mais básico: o de viver.
Enquanto isso, as guerras e disputas geopolíticas multiplicam tragédias humanas. Conflitos na Ucrânia, em Gaza, no Sudão e em outras regiões esquecidas revelam a erosão desses valores humanitários. O multilateralismo, idealizado como ferramenta de cooperação global, mostra sinais de esgotamento diante da rivalidade entre potências e do avanço do autoritarismo. A ONU, paralisada por vetos e interesses nacionais, perde capacidade de ação justamente quando o mundo mais precisa de coordenação e diálogo.
Mas o impasse não é apenas diplomático, é civilizatório. A crise atual não resulta apenas da escassez de recursos ou da competição entre Estados, mas de uma visão de progresso que separa o humano do planeta, o indivíduo da coletividade, o direito da responsabilidade. O desafio é reconstruir a ideia de humanidade em bases mais solidárias e sustentáveis.
Superar esse cenário exige mais do que tratados e conferências. Exige uma revolução ética e cultural. É preciso compreender que os direitos humanos não se sustentam sem justiça social, e que a justiça social não é possível sem justiça ambiental. O combate à desigualdade, a defesa da democracia e a transição ecológica são faces de uma mesma luta.
O fortalecimento do multilateralismo é essencial, mas precisa ser repensado. As instituições internacionais devem ser mais democráticas, plurais e representativas das vozes do Sul Global. A proteção dos direitos humanos precisa incorporar novas dimensões, como o direito à natureza, à autodeterminação dos povos e à tecnologia acessível para responder aos desafios do século XXI.
Nesse esforço, as comunidades tradicionais e originárias oferecem lições valiosas. Povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos carregam saberes ancestrais sobre convivência com o meio ambiente, uso equilibrado dos recursos naturais e a importância da coletividade sobre o individualismo. Suas cosmovisões nos lembram que não há futuro possível sem respeito à terra e às relações de cuidado, e que não é possível pensar o ser humano de forma isolada. É preciso reaprender com os povos originários a profunda conexão entre nós, os animais e o ambiente; em resumo, com o próprio planeta.
Essas comunidades, frequentemente marginalizadas, são também protagonistas da resistência contemporânea. Sua luta pela terra, pela memória e pela sobrevivência cultural é uma extensão prática da própria Declaração Universal, uma forma de afirmar que os direitos humanos não pertencem apenas aos tratados internacionais, mas se enraízam no cotidiano das pessoas.
Celebrar o Dia dos Direitos Humanos, portanto, é mais do que rememorar um marco histórico. É reconhecer a urgência de um novo pacto de humanidade, capaz de unir o saber científico ao conhecimento tradicional e a política institucional à ação comunitária. É compreender que o futuro dos direitos humanos dependerá de nossa capacidade de reaprender a viver juntos entre nós e com o planeta.
Enquanto houver povos deslocados por guerras, crianças sem acesso à educação, famílias soterradas por enchentes ou comunidades invisibilizadas em nome do progresso, a promessa de 1948 continuará inacabada.
Nunca tivemos tanto à nossa disposição, tanto em conhecimento e recursos, e ao mesmo tempo nunca estivemos tão separados da ideia unificadora que deveria nos guiar para transformar esses direitos humanos em leis que efetivamente possam mudar a vida das pessoas, garantindo comida, abrigo e dignidade.
A resposta para atravessar essas múltiplas crises está ao nosso alcance: se houver empatia, coragem política e sabedoria ancestral, ainda é possível reescrever a história que está no cerne da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
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