É enfermeira. Doutora em Epidemiologia (UERJ). Pós-doutora em Epidemiologia (Johns Hopkins University). Professora Titular da Ufes. Aborda nesta coluna a relação entre saúde, ciência e contemporaneidade

Os Direitos Humanos em tempos de múltiplas crises

A proteção dos direitos humanos precisa incorporar novas dimensões, como o direito à natureza, à autodeterminação dos povos e à tecnologia acessível para responder aos desafios do século XXI.

Publicado em 11/12/2025 às 03h30

O Dia dos Direitos Humanos, celebrado em 10 de dezembro, marca a adoção da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela ONU em 1948, influenciada pelas atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial. Mais de sete décadas depois, os princípios ali consagrados - liberdade, igualdade e dignidade - enfrentam uma era de tensão. O planeta vive um acúmulo de crises interligadas: climática, geopolítica, econômica e institucional. Cada uma delas revela, à sua maneira, o quanto o projeto humanista do pós-guerra está em risco.

A crise climática é o retrato mais dramático dessa era de incerteza. Enchentes devastadoras, incêndios florestais e secas prolongadas não são apenas catástrofes naturais: são fruto da nossa relação extrativista e exploratória com o planeta, e também violações de direitos humanos.

O colapso ambiental atinge de forma desigual: populações indígenas, quilombolas, ribeirinhas e periféricas sofrem primeiro e de forma mais intensa. Os chamados refugiados climáticos, ainda sem reconhecimento jurídico, simbolizam o fracasso coletivo em proteger o direito mais básico: o de viver.

Enquanto isso, as guerras e disputas geopolíticas multiplicam tragédias humanas. Conflitos na Ucrânia, em Gaza, no Sudão e em outras regiões esquecidas revelam a erosão desses valores humanitários. O multilateralismo, idealizado como ferramenta de cooperação global, mostra sinais de esgotamento diante da rivalidade entre potências e do avanço do autoritarismo. A ONU, paralisada por vetos e interesses nacionais, perde capacidade de ação justamente quando o mundo mais precisa de coordenação e diálogo.

Mas o impasse não é apenas diplomático, é civilizatório. A crise atual não resulta apenas da escassez de recursos ou da competição entre Estados, mas de uma visão de progresso que separa o humano do planeta, o indivíduo da coletividade, o direito da responsabilidade. O desafio é reconstruir a ideia de humanidade em bases mais solidárias e sustentáveis.

Superar esse cenário exige mais do que tratados e conferências. Exige uma revolução ética e cultural. É preciso compreender que os direitos humanos não se sustentam sem justiça social, e que a justiça social não é possível sem justiça ambiental. O combate à desigualdade, a defesa da democracia e a transição ecológica são faces de uma mesma luta.

O fortalecimento do multilateralismo é essencial, mas precisa ser repensado. As instituições internacionais devem ser mais democráticas, plurais e representativas das vozes do Sul Global. A proteção dos direitos humanos precisa incorporar novas dimensões, como o direito à natureza, à autodeterminação dos povos e à tecnologia acessível para responder aos desafios do século XXI.

Nesse esforço, as comunidades tradicionais e originárias oferecem lições valiosas. Povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos carregam saberes ancestrais sobre convivência com o meio ambiente, uso equilibrado dos recursos naturais e a importância da coletividade sobre o individualismo. Suas cosmovisões nos lembram que não há futuro possível sem respeito à terra e às relações de cuidado, e que não é possível pensar o ser humano de forma isolada. É preciso reaprender com os povos originários a profunda conexão entre nós, os animais e o ambiente; em resumo, com o próprio planeta.

Essas comunidades, frequentemente marginalizadas, são também protagonistas da resistência contemporânea. Sua luta pela terra, pela memória e pela sobrevivência cultural é uma extensão prática da própria Declaração Universal, uma forma de afirmar que os direitos humanos não pertencem apenas aos tratados internacionais, mas se enraízam no cotidiano das pessoas.

Nações Unidas
ONU. Crédito: Pixabay

Celebrar o Dia dos Direitos Humanos, portanto, é mais do que rememorar um marco histórico. É reconhecer a urgência de um novo pacto de humanidade, capaz de unir o saber científico ao conhecimento tradicional e a política institucional à ação comunitária. É compreender que o futuro dos direitos humanos dependerá de nossa capacidade de reaprender a viver juntos entre nós e com o planeta.

Enquanto houver povos deslocados por guerras, crianças sem acesso à educação, famílias soterradas por enchentes ou comunidades invisibilizadas em nome do progresso, a promessa de 1948 continuará inacabada.

Nunca tivemos tanto à nossa disposição, tanto em conhecimento e recursos, e ao mesmo tempo nunca estivemos tão separados da ideia unificadora que deveria nos guiar para transformar esses direitos humanos em leis que efetivamente possam mudar a vida das pessoas, garantindo comida, abrigo e dignidade.

A resposta para atravessar essas múltiplas crises está ao nosso alcance: se houver empatia, coragem política e sabedoria ancestral, ainda é possível reescrever a história que está no cerne da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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