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Doutora em Epidemiologia (UERJ). Pós-doutora em Epidemiologia (Johns Hopkins University). Professora Titular da Ufes. Aborda nesta coluna a relação entre saúde, ciência e contemporaneidade

Na pandemia, o medo é o sentimento que nos une

O tempo da ciência é confrontado pelo da pandemia. Daí surge um espaço enorme no labirinto do medo, para os caminhos imprecisos e para as rotas incertas

Publicado em 09/07/2020 às 06h00
Atualizado em 09/07/2020 às 06h00
medo
O medo ronda a vida e mostra a morte. Essa condição da existência, que é comum a todos nós, fica mais pungente durante a pandemia. Crédito: Divulgação

Hoje quero falar um pouco sobre o medo que nos assola durante as pandemias. Passamos muito tempo falando da doença, ouvindo e pensando sobre a doença. Há uma saturação de nossos sentidos em torno desse tema. Essa impregnação, esse encharcamento sobre a pandemia, nos causa horror e medo.

O medo surge maior à noite, o coração dispara, sonhamos, acordamos atordoados em meio à noite e nosso sono já não pode ser embalado de acalantos. Vemos o número de mortos e nos perguntamos: como o vírus chegou até eles? O que podemos fazer para ser diferente?

Os que morreram viraram eles, os outros. O medo ronda a vida e mostra a morte. Essa condição da existência, que é comum a todos nós, fica mais pungente durante a pandemia. É a velocidade das mortes, o medo de que possamos engrossar a qualquer momento suas fileiras. Na pandemia, assim como na guerra, as fileiras de mortos se avolumam diariamente. Essa rapidez nos tira a percepção do risco, ou o deixa distorcido.

O medo é o risco que se torna presente, é o sentimento que nos une. Nesta pandemia, como em outras, o medo é o outro. É aquele que pode nos contaminar, pode trazer o vírus para nossa casa e nos mostrar o horror da morte.

Mas, nos labirintos do medo, os caminhos não são os mesmos. Há caminhos que não dão a parte alguma e há caminhos que nos levam para fora do labirinto. O medo tem esse quê do desconhecido.

É por isso que as religiões, ao longo das pandemias, foram tão importantes. Elas nos dão respostas. Historicamente, as religiões explicaram as pandemias como castigo aos nossos atos. Por muito tempo, essa foi a única forma de explicação. O risco passava a ser medido e respeitado. O alívio era imediato. Os dogmas nos protegiam do medo e do risco. Não há como combater dogmas: é uma questão de crença. A crença e o medo sempre andaram de mãos dadas na história.

O DESCONFORTO DA CIÊNCIA 

A ciência, por sua vez, mostra o risco de forma muito menos confortável. Há fatores que predispõem e fatores que protegem. Os cálculos giram em torno de ter ou não os tais fatores e a soma dos medos é proporcional a eles. Tenho fatores, logo tenho muito medo. Não tenho fatores, então tenho pouco medo.

Ainda que a relação não seja assim tão direta, o medo e o risco são medidos por régua de proporção e taxas. A ciência é mais rigorosa que os dogmas e, ao contrário desses, não é incontestável. Teorias podem ser refutadas, por meio de outros testes, observações e proposições mais abrangentes e exatas.

Ethel Maciel

Autora do artigo

"Durante uma pandemia, a velocidade da produção de conhecimento científico é infinitamente menor que a de se produzir opiniões. "

Em meio a tantas incertezas de uma nova doença, a ciência passou a ser atacada e criou-se uma forma de confundir que se chama “opinião”. Não sabemos exatamente em que momento a opinião entrou em choque com a ciência, mas o fato é que hoje há poucos cientistas e muitos opinantes.

A ciência exige método, tempo, trabalho, técnica. Durante uma pandemia, a velocidade da produção de conhecimento científico é infinitamente menor que a de se produzir opiniões. O tempo da ciência é confrontado pelo da pandemia. Daí surge um espaço enorme no labirinto do medo, para os caminhos imprecisos e para as rotas incertas.

A opinião muitas vezes não está baseada em fatos e nem mesmo no bom senso. Assim, baseados em juízos subjetivos, voltamos, ainda que de forma diferente ao ciclo dos dogmas, preceitos e doutrinas.

Compreendemos, cada vez mais atônitos, que os séculos que nos separam de outras pandemias não foram suficientes para mudar a essência humana de nossos medos. Ainda procuramos falsos profetas e respostas fáceis. Eles sempre estiveram aí, à espera da oportunidade para nos guiar no caminho de suas falsas e rápidas soluções. Seja vendendo o elixir da longa vida em tendas no século XIV, seja vendendo medicamentos milagrosos sem comprovação cientifica no século XXI.

Enquanto isso, a ciência e nós, cientistas, lutamos incansavelmente. A despeito de muitas batalhas perdidas, lutamos para chegar, enfim, à saída segura do labirinto de incertezas, com aquilo que não é simples, não é fácil, mas que certamente está salvando vidas: o conhecimento científico. Com o sequenciamento do genoma do vírus, e a esperança de uma vacina segura e eficaz, a batalha final será por fim, vencida pela ciência. E aqui, no espaço bidimensional desta coluna, a ciência terá sempre seu lugar de honra.

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