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Doutora em Epidemiologia (UERJ). Pós-doutora em Epidemiologia (Johns Hopkins University). Professora Titular da Ufes. Aborda nesta coluna a relação entre saúde, ciência e contemporaneidade

Diário da pandemia: um ano depois, o que aprendemos?

Olhando a história, podemos pensar que depois que a pandemia for controlada com as vacinas, nós saberemos muito mais sobre ela do que sabemos agora

Publicado em 04/03/2021 às 02h03
Mulher com máscara para se proteger do coronavírus em casa; lockdown, isolamento, confinamento
Durante essa pandemia, o tempo tem passado de forma muita estranha e distinta. Crédito: Freepik

Completamos um ano de pandemia da Covid-19 no dia 26 de fevereiro. E durante essa pandemia, o tempo tem passado de forma muito estranha e distinta. Para alguns, esse tempo voou que nem conseguimos ver, para outros, esse período foi e tem sido uma eternidade.

E vivemos muitos sentimentos distintos, mas sempre com a empatia pelas muitas famílias que sofrem por terem perdido seus entes queridos. Foram mais de 250 mil mortes no Brasil, levando em conta apenas os números oficiais. Sem contar aquelas que saberemos ao findar a pandemia, quando estudos com maior robustez científica poderão ser conduzidos.

Importante sempre termos em vista o passado. Na primeira pandemia do século 21, há 12 anos, foi descoberto no México um novo vírus influenza que causava uma doença que viria a ser conhecida como gripe suína (vírus influenza do grupo A, do qual o subtipo de H1N1 faz parte). Eles sofrem mutações frequentes e produzem novas cepas contra as quais não temos imunidade. 

Estudos científicos estimam hoje que aproximadamente 700 milhões a 1,7 bilhão da população global na época tenha contraído o H1N1. A princípio, a OMS apontou que cerca de 18 mil pessoas morreram por causa da gripe suína, mas, em um estudo posterior, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos calcula que esse número pode ter chegado a 545,4 mil no primeiro ano de circulação do novo subtipo de H1N1.

Olhando a história, podemos pensar que depois que a pandemia for controlada com as vacinas, nós saberemos muito mais sobre ela do que sabemos agora. À semelhança dos grandes desastres e acidentes aéreos, a epidemiologia estuda todos os fatores que determinaram a distribuição e as causas das pandemias e epidemias, para que nossas respostas a elas possam ser melhores no futuro. Há muitas feridas deixadas por essa pandemia que ainda segue conosco, sem data para nos deixar. E já sabemos agora que esse será mais um dos muitos vírus que veio para ficar.

Aprender durante o processo é sempre mais doloroso e difícil. Estamos mais preocupados em resolver os problemas e menos concentrados em descobrir os fatores que o causaram. Mas, neste momento em que completamos um ano do primeiro caso no Brasil, elucidar “o que aprendemos com essa pandemia?” pode ser fundamental ainda durante o processo. Eu tenho refletido por muitas horas sobre a resposta, que ainda não tenho. Mas divido aqui algumas reflexões.

Aprender significa adquirir habilidade na prática. Durante a pandemia, aprendemos que as ações de prevenção contra o vírus dependiam de conhecimento, atitudes e práticas coletivas e aí nossos problemas começaram. Não temos essa prática no Brasil, não há estímulo como em outros países para ações solidárias, não há no cotidiano curricular práticas voltadas para a formação cidadã.

Em países do bloco do G7, por exemplo, as atividades extracurriculares e curriculares de trabalho na comunidade são pontuadas na procura do trabalho ou na entrada para a universidade. Por aqui, nunca tivemos estímulo formal para ações coletivas. Quando existem, estão focadas na caridade e na religião, conceitos muito diferentes da ação cidadã, da ideia de pertencimento à sua comunidade. Assim, isolados, individualizados e solitários entramos nessa pandemia.

E quando o fundamental olhar para o outro, manifestado pelo uso da máscara como sinal de respeito, pela prática de distanciamento para proteção coletiva, e finalmente pela defesa da vacinação, estes encontraram em nossa sociedade dificuldades adicionais. Superá-las será nossa maior tarefa daqui em diante. Temos alguns exemplos de sucesso e teremos a missão de que eles deixem de ser exceção para ser regra.

Transformar nossa escola e sociedade para uma formação cidadã, comprometida com a comunidade em que está inserida, com suas mazelas e fortalezas e ir além: formar cidadãos que respeitem o coletivo e que contribuam para a superação de suas limitações será sem dúvida a tarefa da nossa geração.

Essa geração que viu o mundo parar, que viu muitas vidas sendo ceifadas, que viu líderes medíocres, que viu a ignorância sendo exibida como troféu, tem o débito, com ela mesma e com as gerações próximas, de contribuir para que, no futuro, tenhamos gerações mais preparadas, com maior habilidade e mais comprometidas com senso de coletividade e justiça.

*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta

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