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Doutora em Epidemiologia (UERJ). Pós-doutora em Epidemiologia (Johns Hopkins University). Professora Titular da Ufes. Aborda nesta coluna a relação entre saúde, ciência e contemporaneidade

Com dose de reforço, o Brasil pela primeira vez age ao invés de só reagir

Desde a semana passada, todas as pessoas acima de 18 anos estão elegíveis a receber o reforço da vacina contra a Covid-19 até cinco meses após a segunda dose. Essa é uma ótima notícia!

Publicado em 25/11/2021 às 02h00
BELÉM,PA,31.03.2021:VACINAÇÃO-CONTRA-COVID-19- SEGUNDA-DOSE - 2° dose de vacinação dos idosos da faixa dos 70 anos em Belém (PA) nesta quarta-feira (31). (Foto: )
Vacinação contra a Covid-19. Crédito: Bruno Cecim/Futura Press/Folhapress

Pela primeira vez, durante todas as ações de controle da pandemia, estamos agindo ao invés de reagir. Ao longo desses longos, longuíssimos e intermináveis 20 meses, a campanha de vacinação no Brasil passou por muitas mudanças, mas de forma geral sempre reagindo à evolução e adaptação do vírus.

Agora, à medida que passamos a conhecer melhor a Covid-19, aprendemos que a vacinação vai controlar a doença, mas precisaremos readequar o percentual de pessoas e ampliar os grupos de imunizados, principalmente incluindo as doses de reforço para controlar também a transmissão da doença.

A dose de reforço, como já expliquei em outra coluna, consiste na aplicação de mais uma dose da vacina, com o objetivo de restabelecer a quantidade ideal de anticorpos que eventualmente tenha se reduzido, tanto pelo passar do tempo quanto pelo surgimento de novas variantes, que podem diminuir a capacidade do nosso sistema imunológico, nosso sistema de defesa, de combater o vírus.

Estudos feitos por pesquisadores estadunidenses demonstraram que a imunidade adquirida contra a Covid-19 diminui com o tempo e que uma dose de reforço deve ser administrada entre seis a oito meses após a aplicação da segunda dose. No Brasil, essa dose de reforço foi definida pelo Ministério da Saúde. Como usamos vacinas com plataformas diferentes, o ministério definiu o intervalo de cinco meses, para se antecipar a diminuição da resposta de defesa do organismo ao vírus.

Portanto, desde a semana passada, todas as pessoas acima de 18 anos estão elegíveis e deverão receber a dose de reforço até cinco meses após a segunda dose. Essa é uma ótima notícia! Estamos antecipando uma possível falha na resposta imunológica que poderá ocorrer com a chegada das comemorações de fim de ano, quando muitas pessoas tendem a se aglomerar. Em um cenário pandêmico, essas reuniões podem ser responsáveis por elevar o número de pessoas doentes, hospitalizadas e que podem morrer pela Covid-19.

O anúncio foi cercado de incerteza, e muita confusão, pois muitos Estados e municípios ainda estão longe da meta de imunização de 80% da população vacinada com duas doses (acima de 12 anos) e 90% dos idosos com dose de reforço já administradas. Como os serviços que são responsáveis pela vacinação são os mesmos para todos os grupos, a intensificação do trabalho nas salas de vacinação foi recebida com preocupação. Isso significa que alguns municípios que se planejaram para colocar seus esforços na resolução de outros problemas de saúde deverão iniciar uma nova e robusta campanha para todos acima de 18 anos.

Além do cenário de reforço para adultos, ainda temos a meta da vacinação em adolescentes e a perspectiva próxima de inclusão das crianças. O Ministério da Saúde afirma que já fez uma encomenda para a fabricante Pfizer, que teve a vacina aprovada pelo órgão de vigilância sanitária nos Estados Unidos. Para o grupo infantil, a formulação tem uma dose diferente, como novo frasco do composto, o que configura uma nova compra de vacina.

Tenho sempre dito que pela ciência sairemos dessa pandemia salvos pela vacinação. Quando tivermos mais de 80% (preferencialmente 90%) da população brasileira imunizada com as duas doses - e sim esse limiar de cobertura muda dependendo das mudanças do vírus e do aprendizado contínuo da ciência.

Aprendemos por exemplo, que mesmo a vacina da Janssen precisa de duas doses diante das novas variantes e, portanto, o esquema completo vai ser considerado com duas doses, ao invés de dose única. Isso fará com que o serviço de saúde tenha que informar e buscar todas as pessoas que receberam uma dose dessa vacina.

Agora também já sabemos que precisaremos de doses de reforço. Muitos receberão essa dose ainda este ano, e outros no início do ano que vem, a depender do intervalo com que receberam a segunda dose. É possível que tenhamos que ter mais de uma dose de reforço e que essa vacina entre no nosso calendário anual, mas ainda precisamos continuar as pesquisas para termos essa compreensão definitiva. Por ora, todos acima de 18 anos que receberam as duas doses de qualquer vacina deverão receber o reforço com cinco meses da segunda dose.

Outro fator importante que a ciência nos ajudou a compreender é que vacinas heterólogas (vacinas de plataformas diferentes), por exemplo vírus inativado, vetor viral e RNA, têm uma chance maior de “ensinar” ou “treinar” o nosso sistema imunológico com formas diferentes de se proteger. Também aprendemos que as vacinas de RNA, pela forma que atuam, ensinando o nosso sistema imunológico a fabricar passo a passo a nossa defesa, conseguem elevar nossa capacidade de resposta à agressão do vírus. Portanto, a vacina de RNA foi escolhida para ser a vacina preferencial da dose de reforço no Brasil.

Porém, AINDA ESTAMOS EM UMA PANDEMIA. Até que ela esteja controlada, precisamos continuar a nos cuidar, seguir os protocolos, ampliar a testagem, usar máscara e procurar ficar em ambientes arejados. Nessa fase, cada um de nós deve ser um agente em favor do controle da pandemia. Como? Vacinando-se e convencendo os amigos, familiares e até os desconhecidos da importância de completar o esquema vacinal no caso dos que receberam a vacina da Janssen e fazer a dose de reforço em todos acima de 18 anos.

Não custa lembrar: ainda tem gente que não recebeu nenhuma dose. Se você conhece alguém, converse com ele ou ela e fale da importância da vacinação para que possamos estar mais próximos do fim da pandemia. Dependemos de todos para que se cumpra o lema do governo federal: Brasil #patriavacinada!

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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