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Doutora em Epidemiologia (UERJ). Pós-doutora em Epidemiologia (Johns Hopkins University). Professora Titular da Ufes. Aborda nesta coluna a relação entre saúde, ciência e contemporaneidade

Cada pessoa que morreu de Covid-19 perdeu 17 anos de vida, em média

Além do impacto emocional da perda prematura, essas mortes têm um valor social importante. Quando ocorre em uma fase da vida produtiva, ela atinge não somente o indivíduo, mas o grupo familiar e coletivo em que a pessoa estava inserida

Publicado em 07/07/2022 às 02h02

Coluna com colaboração da pesquisadora e professora da Ufes Keila Cristina Mascarello

Quando falamos da Covid-19, é preciso deixar claro que ainda há muito a aprender. Essa é uma nova doença e a cada pesquisa, novos conhecimentos vão sendo adicionados. Uma dessas pesquisas que têm sido desenvolvidas ao redor do mundo busca entender o impacto das mortes, principalmente aquelas prematuras, cujas vítimas eram bem jovens e ainda teriam muito tempo de vida, se não fosse a Covid-19.

Uma das metodologias utilizadas em estudos desse tipo é a expectativa de vida: o número de anos que, em média, uma pessoa pode viver, considerando que as condições de vida sejam mantidas as mesmas do período de seu nascimento. A expectativa de vida está relacionada com as condições de vida da população, assistência à saúde, educação, saneamento básico, índices de violência e outros que podem levar a uma morte precoce.

No Espírito Santo, a expectativa de vida atual, de acordo com o IBGE, é de 79 anos, uma das maiores do país. Ou seja: quando você nasce aqui, se nada fora do normal acontecer na sua vida, você pode esperar viver pelo menos até os 79 anos. Se sua condição de vida for melhor, você viverá mais que isso. A qualidade de sua condição de vida, em geral, determina o tempo até sua morte.

INDICADOR EPIDEMIOLÓGICO

Morrer com idade inferior à expectativa de vida pode significar uma morte prematura que, muitas vezes, poderia ter sido evitada com medidas adequadas, principalmente nas questões sociais e relacionadas à saúde. Esse é um importante indicador que estudamos em Epidemiologia, para criar políticas públicas que possam melhorar a vida das pessoas. Assim, morrer antes de 79 anos no Espírito Santo indica que algo foi inadequado em relação a sua saúde ou condição social.

Para medir o impacto dessa morte precoce, utiliza-se um indicador chamado Anos Potenciais de Vida Perdidos (APVP), usado para mensurar quanto tempo uma pessoa ainda viveria se não tivesse morrido prematuramente. Naturalmente, uma morte infantil ou de adolescente, por exemplo, leva a um maior número de anos de vida perdidos.

Desde o início da pandemia de Covid-19, mais de 670 mil pessoas perderam a vida para a doença no Brasil. No Espírito Santo, foram mais de 14 mil óbitos, muitos deles prematuramente, antes da expectativa de vida média atual.

Realizamos uma pesquisa no Espírito Santo para avaliar esses anos perdidos de vida de forma prematura por causa da pandemia. Considerando os óbitos ocorridos no Estado até 22 de julho de 2021, quando contabilizávamos 11.786 mortes, foram 154.843 anos de vida perdidos devido às mortes prematuras por Covid-19.

É importante ressaltar que esse é um resultado muito triste. Identificamos que, em média, cada pessoa que morreu por Covid-19 perdeu 17 anos de vida, chegando a 77 anos de vida perdidos a cada morte de uma criança.

VALOR SOCIAL DAS MORTES

Além de todo o impacto emocional e de perda de uma morte prematura, essas mortes têm um valor social importante. Quando a morte ocorre em uma fase da vida produtiva, ela atinge não somente o indivíduo, mas o grupo familiar e coletivo em que essa pessoa está inserida, deixando muitas vezes famílias desamparadas, desprovidas de todo seu suporte econômico e social.

Para além disso, estamos vivendo uma geração de órfãos da Covid-19 e esse impacto é muito maior do que nossos indicadores epidemiológicos podem computar. São crianças e adultos que foram privados de um abraço materno ou paterno. Seus pais não estarão aqui para vê-los quando entrarem na escola, quando viverem o primeiro amor, receberem o diploma de conclusão dos estudos e tantos outros marcos importantes da vida. Infelizmente, nunca dividirão a felicidade com os filhos nessa existência.

A morte de idosos, embora leve a um menor número de anos de vida perdidos, no cotidiano também leva a muita dor. Esse sofrimento vivenciado por muitas famílias também é de difícil mensuração apenas com números. Devido à profunda crise social que foi agravada pela pandemia, precisamos também considerar que muitas famílias brasileiras dependem inteiramente da renda previdenciária do idoso para sobreviver. A morte prematura de muitos desses idosos impactou profundamente, para além das questões óbvias afetivas, a forma de sobrevivência de várias famílias, que se viram, de um dia para o outro, desprovidas de seu sustento.

O grande número de anos de vida perdidos relacionados aos óbitos por Covid-19 e pelo agravamento de outras condições nesse período levará a uma diminuição da expectativa de vida da população, em especial nas regiões mais afetadas. Essa redução, somada ao desemprego, queda da renda e poder de compra, maior insegurança alimentar e prejuízos importantes na educação, pode impor uma crise social e econômica importante atualmente e nos próximos anos. Assim, a Covid-19 adiciona mais um fator no complexo tecido social brasileiro, já bastante desigual e empobrecido.

IMPORTÂNCIA DA VACINAÇÃO

A pandemia continua, mas graças às vacinas seus efeitos foram minimizados, mas as consequências deixadas na vida de tantas pessoas pela pandemia ainda perdurarão por anos e em algumas para sempre. A responsabilidade social de todos para com a informação de qualidade que possa garantir a vacinação oportuna em todas as faixas etárias salva vidas.

Entender os múltiplos aspectos do impacto da pandemia de Covid-19 é tarefa da ciência. Buscar formas de minimizar esses impactos é tarefa de nossos gestores. Encontrar formas de apoio social será uma tarefa de todos de nossa sociedade. Há muito a ser feito.

Sentir com o outro, acolher a quem precisa de nosso afeto e expressar nosso cuidado em atos é fundamental. Mesmo que a pandemia tenha deixado dores irreparáveis, praticar a empatia nos torna mais humanos!

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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