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2 anos de pandemia

Brasil precisa incorporar novos medicamentos contra a Covid-19 ao SUS

Em dois anos, tivemos mais erros do que acertos no enfrentamento da pandemia. Agora, é preciso buscar escolhas corretas para o tratamento de casos graves, bem como definir um calendário de vacinação

Publicado em 17 de Março de 2022 às 02:00

Públicado em 

17 mar 2022 às 02:00
Ethel Maciel

Colunista

Ethel Maciel

As embalagens devem ser fechadas corretamente para proteger o medicamento.
Antivirais e anticorpos monoclonais para tratamento da Covid-19 já foram descobertos pela ciência. Crédito: Reprodução/Freepik
No dia 11 de março de 2020, a Organização Mundial de Saúde (OMS) decretava a Covid-19 como uma pandemia, em meio às críticas de que havia demorado para instituir o decreto e muitas incertezas sobre o que estava por vir. Agora, o mundo completa dois anos em meio a alguns acertos e muitos erros. Entre novas variantes que causaram outras ondas da doença, março de 2022 tem diferenças importantes em comparação a março de 2020.
Esses dois anos chegam com o recorde de casos, devido à variante Ômicron, superinfecciosa e ainda com alto número de óbitos no Brasil, em torno de 500 por dia. O tsunami da Ômicron, como ficou conhecida a nova onda, apesar do número sem precedentes de casos, não foi acompanhada do mesmo crescimento nos óbitos, devido ao nosso grande acerto: as vacinas.
O Brasil sempre foi um exemplo quando se trata de saúde pública. Temos o maior sistema de saúde universal do mundo, o Sistema Único de Saúde (SUS), que desde sua construção baseada na Constituição de 1988 e sua efetivação na década de 90 do século passado tem sido um pilar para o enfrentamento de epidemias e endemias.
As políticas públicas de saúde no Brasil sempre foram verticalizadas: é dever federal instituir as políticas de saúde, enquanto Estados e municípios pactuam e adaptam essas diretrizes para seus cenários regionais, levando em conta a dimensão geográfica e socioeconômica de um país como o Brasil. Durante a pandemia da Covid-19, pela primeira vez na história, vimos a quebra dessa estruturação.
Com o ente federal falando contra as medidas de prevenção elaboradas pela OMS e indicadas pela ciência, testemunhamos, pela primeira vez, Estados e municípios assumindo de forma isolada o enfrentamento da pandemia, criando critérios próprios e, muitas vezes, diversos uns dos outros. Muitos desses municípios não contavam com corpo técnico qualificado para as tomadas de decisão necessárias em meio à grave crise sanitária instituída pela pandemia.
A politização de medidas de saúde pública deve ser destacada como um dos grandes erros do Brasil. O desestímulo para o uso de máscara e para as medidas de restrição de circulação, o uso de medicamentos ineficazes (conhecidos como kit Covid), a falta de planejamento centralizado de compras de suprimentos como anestésicos, respiradores, entre outros, além da veiculação de desinformação, foram pontos importantes de erros consistentes na condução da pandemia pelo governo federal.
Pela desestruturação que se seguiu nas políticas públicas, deixamos de fazer aquilo que sempre fizemos muito bem; a prevenção. Nossa estratégia de enfrentamento focou na ampliação de leitos hospitalares em todos os Estados, em detrimento de um maior aporte financeiro na diminuição da transmissão, com distribuição de máscaras filtrantes, oxímetros, realização de testes em larga escala e monitoramento dos infectados pela atenção primária à saúde. Além de campanhas de educação em saúde para entendermos como conviver com vírus e fazermos escolhas que minimizassem nossos riscos.
No início de 2021, com a disponibilidade de vacinas no mundo e graças a um investimento de países desenvolvidos em pesquisa, pudemos iniciar a vacinação no Brasil, em meio a muitas campanhas de fake news, vindas inclusive de autoridades máximas do executivo federal, algo nunca visto na nossa história. Felizmente, aponto como nosso maior acerto a pressão popular para a compra de vacinas e a adesão da população à campanha de vacinação, fruto de uma confiança estabelecida por anos pelo nosso Programa Nacional de Imunização.
Ainda não sabemos como e quando a pandemia terá seu decreto revogado pela OMS, entidade que tem a prerrogativa de fazê-lo. Primeiro, precisamos definir um consenso internacional de consultores dos países membros que pesquisam a pandemia: quais seriam os níveis aceitáveis de casos e óbitos de Covid-19 para que possamos mudar de fase e decretarmos endemia.
Segundo, precisamos ter aqui no Brasil a incorporação, no SUS, de medicamentos efetivos para salvar vidas daqueles mais vulneráveis, que mesmo vacinados podem apresentar doenças graves. Até agora, esses antivirais e anticorpos monoclonais já foram descobertos pela ciência.
Terceiro, precisamos definir como a vacinação de Covid-19 se incorpora ao nosso calendário de vacinação. Será um reforço anual, semestral? Apenas para os vulneráveis ou para todos? Por fim, precisamos seguir monitorando o vírus e entendendo como ele evoluirá em suas mutações, para isso a vigilância genômica como parte da vigilância epidemiológica forte e consolidada nos municípios é tarefa dos nossos gestores.
O vírus continuará entre nós fazendo o que sabe fazer bem, evoluindo e mudando para continuar existindo. Resta saber como nós humanos, com muito mais recursos que o vírus, agiremos. Até o momento, parece que o vírus tem feito as melhores escolhas e se aproveitado melhor dos nossos erros.

Ethel Maciel

É enfermeira. Doutora em Epidemiologia (UERJ). Pós-doutora em Epidemiologia (Johns Hopkins University). Professora Titular da Ufes. Aborda nesta coluna a relação entre saúde, ciência e contemporaneidade

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