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Doutora em Epidemiologia (UERJ). Pós-doutora em Epidemiologia (Johns Hopkins University). Professora Titular da Ufes. Aborda nesta coluna a relação entre saúde, ciência e contemporaneidade

As máscaras como símbolos de controle

Diante da revogação dos decretos de obrigatoriedade da utilização de máscara e por ainda estarmos em uma pandemia, cabe a nós compreender a informação, para fazer a melhor escolha

Publicado em 14/04/2022 às 02h00

Quando a pandemia começou, não sabíamos que viveríamos dois longos anos com muitas dores, muitos casos e muitas mortes. Tudo era ainda muito nebuloso. À medida que a ciência foi entendendo o vírus que causava a Covid-19, o Sars-Cov-2, fomos elaborando melhor nossas estratégias de controle.

No início, a recomendação era para que apenas os trabalhadores da saúde usassem máscara. Elas rapidamente sumiram do mercado, e os hospitais e serviços de saúde tinham dificuldade de repor seus estoques.

Nossa campanha era para que as máscaras cirúrgicas e PFF-2 fossem deixadas para utilização de pessoas que estavam mais expostas ao vírus, no caso, trabalhadores da saúde. Ainda tínhamos a lembrança da pandemia do Sars-Cov em 2002 e do Mers-Cov em 2012 (outros coronavírus), ambas de baixa transmissibilidade e maior gravidade da doença, o que fez com que as pandemias fossem rapidamente contidas e ficassem mais restritas aos contatos próximos e aos profissionais de saúde.

No entanto, à medida que a pandemia e o vírus evoluíram, tivemos o entendimento, através de estudos rapidamente executados, de que esse coronavírus, o Sars-Cov-2, era muito mais adaptado ao ser humano e muito mais transmissível. Por isso, a contenção não seguiria os mesmos parâmetros dos coronavírus das pandemias anteriores. Esse fato foi crucial para que a OMS modificasse suas recomendações, adotando a indicação de máscara para todos.

Ainda com poucos estoques mundiais, a decisão foi preconizar que máscaras caseiras pudessem ser confeccionadas (aprendizado da pandemia de 1918) e, rapidamente, tutoriais de como fabricar as máscaras com duplas ou triplas camadas se fizeram abundantes na internet.

Ainda em 2020, deu-se o surgimento da primeira variante de preocupação, denominada Alfa, que havia feito múltiplas modificações em sua estrutura, dando ao vírus vantagens evolutivas, tornando-o mais transmissível e provocando doença mais grave em 30% dos casos.

Rapidamente, as evidências científicas apontaram que as máscaras caseiras já eram insuficientes em sua efetiva proteção contra a contaminação. A partir dali, os estudos, principalmente aqueles realizados pelo CDC, apontavam que a utilização de máscaras mais filtrantes, como cirúrgica e PFF-2, eram as melhores escolhas. Na falta delas, o uso de duas máscaras de tecido aumentava a proteção.

Iniciamos, então, uma campanha para que o SUS pudesse distribuir máscaras mais filtrantes, em um momento em que várias medidas de restrição já haviam sido revogadas e parte importante dos trabalhadores e trabalhadoras já ocupavam presencialmente seus postos de trabalho, com imensa possiblidade de contaminação.

Assim, os estudos iam demostrando a importância das máscaras para a prevenção da infecção e adoecimento, e os governos incluíram a obrigatoriedade do uso de máscaras em espaços compartilhados.

No entanto, infelizmente os governos não investiram em política pública de prevenção e promoção da saúde com distribuição de máscaras filtrantes, e com exceção da campanha de vacinação, nenhuma outra medida de prevenção da doença foi implementada. As medidas se concentraram em diagnosticar os infectados - de forma bem precária e com bastante restrição de testes- e na ampliação de leitos para receber os doentes, em um momento em que ainda não tínhamos tratamentos efetivos contra o vírus.

Depois, com as variantes de preocupação Gama, Delta e Ômicron, a necessidade de máscaras mais filtrantes ficou ainda mais evidente e a obrigatoriedade de máscaras passou a ser adotada para todos os espaços. A máscara era a medida de saúde pública mais visível de que estávamos (e estamos) em uma pandemia.

É preciso pontuar que a vacinação nos permitiu chegar a indicadores muito melhores da doença, mas como um evento global, que é por definição uma pandemia, precisamos estar atentos ao aumento de transmissão que pode, em última análise, permitir o surgimento de novas variantes de preocupação.

O surgimento dessas variantes que pode impactar, inclusive, nossa campanha de vacinação, colocando em risco a efetividade de nossas vacinas. Alguns podem considerar essa leitura alarmista. Entretanto, para nós pesquisadores que estudamos a história e evolução das doenças infecciosas, trata-se de aprender com o passado.

Em eventos de grande crise, ter alguém que oferece respostas rápidas e soluções simplistas vez por outra se faz presente na história, e em geral serve para aprofundar essa crise, se não no curto, no longo prazo.

Ter diante de nós a informação mais completa do evento e poder fazer a melhor escolha é e continuará sendo a forma mais correta de resolver nossas crises, sanitárias, econômicas ou sociais.

Diante da revogação dos decretos de obrigatoriedade da utilização de máscara e por ainda estarmos em uma pandemia,  cabe a nós compreender a informação, para fazer a melhor escolha.

Além disso, como os medicamentos efetivos que existem para o tratamento da Covid-19 já foram aprovados pela Anvisa, mas ainda não estão disponíveis no SUS, sustentam ainda mais o respeito a escolha do uso de máscara, especialmente, por crianças ainda não vacinadas ou com o esquema vacinal incompleto e das pessoas com comorbidades.

Essas pessoas devem ainda continuar de máscara, pois em um evento de infecção têm maior chance de desenvolverem doença grave: pessoas que tratam contra o câncer, aquelas que fazem hemodiálise, usam altas doses de corticoides, que vivem com HIV, que têm outras doenças que diminuem a resposta imunológica do organismo aos agentes infecciosos, aqueles que estão com síndrome gripal, gestantes, idosos e mesmo aquelas que querem se proteger contra a infecção ainda devem usar as máscaras.

Também já aprendemos neste momento que o melhor é não ter a doença. Já sabemos da Covid-19 longa ou persistente. Muitas pessoas que nem tiveram a doença grave lutam agora com suas sequelas. Algumas com cansaço persistente, outras com alterações metabólicas e outras com alterações do humor importantes. Assim, por esse e por outros sintomas persistentes, o melhor continua sendo se proteger contra a infecção.

Respeitar o direito do outro à sua proteção e ter empatia com aqueles que estão se protegendo é tarefa de todos. Depois de dois anos de pandemia, principalmente crianças e adolescentes estão sob muito estresse e é tarefa das escolas acolher as diferenças, conversar sobre elas e promover um ambiente saudável para todas e todos.

Quando olharmos nossas fotos desse período histórico, será possível avaliar, sem dúvida, se a foto foi tirada antes ou durante a pandemia da Covid-19, pela utilização das máscaras. A máscara é um marco histórico desse tempo e foi objeto de muita disputa política. Mas como medida de prevenção para a saúde pública, a máscara representa o respeito ao outro e o cuidado com a própria saúde em uma pandemia de vírus respiratório com transmissão pelo ar.

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Por fim, enquanto estivermos sob o decreto da OMS, o melhor é fazer nossa escolha pensando na nossa saúde e dos que dividem conosco o mesmo espaço, compreendendo a decisão dos outros, inclusive de nossas crianças. Saber os limites de cada um é passo fundamental para a exercermos aquilo que nunca está em desuso, em uma pandemia ou fora dela: o respeito!

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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