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Vacinação

Zé Gotinha na Avenida: carnaval, vacina e inteligência cidadã

Assisti, com emoção e alegria, a três mulheres  (Nísia Trindade, Ethel Maciel e Margareth Dalcolmo), cientistas do mais alto gabarito e reconhecimento nacional e internacional, desfilando na avenida com o Zé Gotinha

Públicado em 

28 fev 2023 às 00:05
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

Vacina
Zé Gotinha na Marquês de Sapucaí Crédito: Divulgação/Ministério da Saúde
Depois das trevas a ciência desfila na avenida iluminando e conduzindo a esperança. Podemos voltar a sonhar com o futuro.
Assisti, com emoção e alegria, a três mulheres da ciência, a ministra Nísia Trindade, Ethel Maciel e Margareth Dalcolmo, cientistas do mais alto gabarito e reconhecimento nacional e internacional, desfilando na avenida com o Zé Gotinha, abrindo o desfile das campeãs das Escolas de Samba.
A mensagem foi impactante, clara e objetiva. Novos tempos se avizinham e são tempos de vida, de esperança e de certeza de que o “mal moral”, perverso, arauto da morte, da doença e da dor, que esteve a nos desgovernar durante quatro anos, não mais está entre nós, decidindo de forma infame e perversa quem pode morrer e quem pode viver.
A esperança venceu o medo, a honra venceu a vergonha, a verdade venceu a mentira e voltamos a acreditar que o amanhã nos reserva dias de menos sofrimento e perdas de pessoas que poderiam estar ainda entre nós, compartilhando a vida, os afetos, lutando e construindo a história.
Ao abrir o desfile das escolas de samba campeãs com Zé Gotinha puxando o cortejo na Sapucaí, no último dia 25 de fevereiro, o Ministério da Saúde acerta no alvo. A alegria contagiante do carnaval se reproduz e capilariza trazendo a mensagem de que a vacina é um bem que precisa ser utilizado para que a festa continue e todos possam comemorar a vida como desejarem, protegidos e seguros.
Abrindo, simbolicamente, a Campanha Nacional de Vacinação, o movimento se apresenta lembrando do compromisso de todos, Estado e Cidadão, com a saúde coletiva e individual, capilarizando no imaginário social a mensagem de que a vida e a saúde dependem da construção de um pacto civilizatório potente, vibrante, vivenciado no cotidiano e dependente de conhecimentos e normas que são fruto de nosso avanço científico, ético e jurídico.
A Campanha Nacional pela Vacinação está nas ruas, na “boca do povo”, no braço de todos e na boquinha de nossas crianças. O respeito ao pacto foi retomado. Idosos, crianças, pessoas com comorbidades e deficiências primeiro. No respeito ao pacto, os mais vulneráveis têm primazia.
Não podemos perder mais ninguém por falta de vacinas. Crianças não podem ter suas vidas e saúde comprometidas para sempre por irresponsabilidade política de governantes, verdadeiros crimes que devem ser investigados e punidos exemplarmente.
Condicionar o Bolsa Família à vacinação dos filhos foi também medida acertada. A redução das taxas de vacinação de crianças no Brasil, que registraram queda de mais de 20%, é fruto de um crime, originado de um governante que estimulou a não vacinação, mas que, de forma contraditória, se vacinou. Não há justificativa plausível para tal perversidade.
Não será fácil reverter o estrago, provar às pessoas a importância da vacinação na prevenção de doenças, tal como a poliomielite, para citar apenas um exemplo.
Retrocedemos mais de 3 décadas nas taxas de vacinação infantil. Saímos da condição de exemplo em vacinação para a condição de vergonha internacional.
Ao escolher a Sapucaí, com Zé Gotinha puxando o desfile juntamente com três mulheres cientistas, sambando na avenida, o Brasil, reposiciona-se estrategicamente, demonstrando que, quando deixamos as especialistas em saúde coletiva tomarem decisões a favor da saúde das pessoas, elas sabem o que fazer e o fazem com perfeição.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

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