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'Irmão' de Bolsonaro e inspiração para a direita radical, Orbán perde eleição após 16 anos na Hungria

Em um discurso aos apoiadores, Órban reconheceu a derrota e disse: "O resultado da eleição é claro e doloroso". Nos últimos anos, ele transformou a Hungria em um destino internacional para a direita, inclusive para o ex-presidente Jair Bolsonaro
BBC News Brasil

Publicado em 

12 abr 2026 às 17:33

Publicado em 12 de Abril de 2026 às 17:33

Após 16 anos seguidos no poder, o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, reconheceu a derrota para Peter Magyar nas eleições neste domingo (12/4).
Em um discurso aos apoiadores, Orbán disse: "O resultado da eleição é claro e doloroso".
Já Magyar disse que recebeu uma ligação de Orbán, na qual ele concedeu a derrota: "Viktor Orbán acabou de me ligar e nos parabenizou pela nossa vitória".
A contagem dos votos ainda está em andamento na Hungria, mas com cerca de 60% apurados até agora, Magyar está a caminho de conquistar uma maioria de dois terços no parlamento, uma vitória esmagadora.
Orbán disse aos apoiadores que a tarefa deles é clara: "Não temos o peso de governar o país, então temos de reconstruir nossas comunidades".
E prosseguiu: "Nós nunca desistimos — isso é algo que as pessoas sabem sobre nós: nunca desistimos. Os dias que virão serão para curar nossas feridas".
No poder desde 2010, Órban contou com o apoio tanto do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, quanto do líder da Rússia, Vladimir Putin.
Em meio à possibilidade de derrota de Orbán, Trump enviou, nesta semana, o vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, à capital húngara, Budapeste, para participar de um comício em uma clara demonstração de apoio à candidatura do aliado.
"Eu amo a Hungria e amo Viktor. Eu digo a vocês que ele é um homem fantástico", disse Trump por telefone durante um comício da campanha. "Sou um grande fã de Viktor e estou com ele até o fim", completou Trump.
Há muito tempo, Orbán era considerado uma pedra no sapato da União Europeia e um dos poucos líderes do bloco que não apoia a Ucrânia.
Para o crescente grupo de partidos nacionalistas da Europa, no poder ou prestes a chegar ao poder, Orbán é um modelo.
No Brasil, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) é um admirador declarado do modelo de Orbán de governar. Durante uma visita a Budapeste em 2022, Bolsonaro o chamou de "irmão"
"Prezado Orbán, trato como irmão, dada a afinidade que temos na defesa dos nossos povos", disse Bolsonaro à época.

Quem é Peter Magyar

Imagem BBC Brasil
Peter Magyar, uma figura mais metropolitana do que Viktor Orbán Crédito: NurPhoto via Getty Images
Peter Magyar, de 45 anos, é um ex-membro do Fidesz, partido de Órban, que ingressou no partido como um estudante entusiasmado, casou-se com a ex-ministra da Justiça do Fidesz e trabalhou como diplomata húngaro em Bruxelas.
Em fevereiro de 2024, ele abandonou o partido e todos os seus cargos em empresas estatais de repente e concedeu uma entrevista que obteve dois milhões de visualizações em poucos dias, acusando o governo de covardia e corrupção. Ele então fundou o partido Tisza, nomeado em homenagem a um afluente do Danúbio.
De figura esguia, vestindo camisas e jaquetas impecáveis, Magyar parecia sofisticado e urbano demais para conquistar o eleitorado rural, mas provou ser um forte desafiante.
Orbán, de 62 anos, é um rapaz do interior que fala húngaro local, enquanto Magyar é um advogado formado em Budapeste.
Consciente de que seu status como membro da elite metropolitana pode torná-lo menos atraente para os eleitores rurais, Magyar percorreu o interior incansavelmente nos últimos dois anos, atraindo grandes multidões.
Ao contrário de Orbán, que discorre com entusiasmo sobre política global em seus discursos, Magyar se concentra em questões internas como saúde, educação, transporte e despovoamento rural.
Imagem BBC Brasil
O presidente americano Donald Trump, à esquerda, e líder húngaro Viktor Orbán, à direita Crédito: Getty Images
Sua relação com a Rússia também é diferente. Ele prometeu que, se vencer, "estudaremos e, quando necessário, alteraremos os contratos existentes com a Rússia e diversificaremos nossos recursos energéticos". Ele também prometeu "restaurar o assento da Hungria nas mesas da União Europeia e da Otan".
Magyar diz que aprendeu rapidamente em suas seis viagens pelo país. Ele abandonou rapidamente suas anotações depois de ser criticado por soar artificial e começou a falar "de coração", disse à BBC no início do ano.
"Depois dos primeiros dias, li as críticas e aprendi a me aproximar das pessoas, a deixar que elas perguntem e respondê-las de forma e honesta, o que é raro na política húngara."
Enquanto Orbán geralmente visita uma cidade por dia na campanha, Magyar visita de três a seis, em um esforço para alcançar todos os 106 distritos eleitorais até o dia da votação.
Ele próprio não é estranho à controvérsia. Após entrar para a política, sua ex-esposa o descreveu como uma figura assustadora, propensa a acessos de raiva e violência doméstica.
Manifestantes anti-Tisza chegaram a exibir faixas estampadas com um sapato que ele supostamente teria atirado nela. As tentativas mais recentes do Fidesz para desacreditá-lo incluem convencer uma ex-namorada a gravar secretamente suas conversas e levá-lo a uma festa onde havia consumo de cocaína.
Magyar nega qualquer abuso doméstico e fala com carinho de sua ex-esposa em público. Ele negou ter usado drogas e, na semana passada, divulgou o resultado negativo de um exame toxicológico, desafiando políticos do Fidesz a fazer o mesmo.

Proximidade com Bolsonaro

No Brasil, a derrota de Orbán é interpretada pelo governo Lula como a derrota de um antigo aliado de Jair Bolsonaro, que cumpre pena de 27 anos de prisão por crimes como tentativa de golpe de Estado e tentativa de abolição violenta do Estado democrático de direito.
Bolsonaro segue sendo a principal liderança da direita no Brasil, mesmo enquanto cumpre sua pena - em regime de prisão domiciliar temporária em razão de problemas de saúde.
A proximidade política entre Bolsonaro e Orbán ficou evidente em 2022, quando o brasileiro foi à Hungria fazer uma visita de Estado ao primeiro-ministro.
Durante o encontro, os dois trocaram elogios e Bolsonaro chegou a chamá-lo de "irmão".
"Prezado Orbán, trato como irmão, dada a afinidade que temos na defesa dos nossos povos", disse Bolsonaro à época.
Em março de 2024, em meio às investigações da Polícia Federal contra Bolsonaro, o ex-presidente dormiu durante duas noites na Embaixada da Hungria, em Brasília.
O episódio foi revelado pelo jornal The New York Times. Mais tarde, em 2025, o caso foi citado pelo ministro do STF, Alexandre de Moraes, como uma das justificativas para negar um pedido de prisão domiciliar feito pela defesa de Bolsonaro.
O caso foi apontado como um indício de que Bolsonaro poderia tentar pedir asilo em uma embaixada estrangeira para fugir de um eventual pedido de prisão das autoridades brasileiras.
Os advogados de Bolsonaro, no entanto, rebateram as suposições de que a passagem do ex-presidente pela embaixada tivesse o intuito de obter uma fuga.
"Não há, portanto, razões mínimas e nem mesmo cenário jurídico a justificar que se suponha algum tipo de movimento voltado a obter asilo em uma embaixada estrangeira ou que indiquem uma intenção de evadir-se das autoridades legais ou obstruir, de qualquer forma, a aplicação da lei penal", disse a defesa em documento enviado ao STF naquela ocasião.
A proximidade entre os dois continuou ao longo dos anos.
Em julho de 2025, antes do julgamento de Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal (STF), Orbán saiu em defesa do ex-presidente.
"Continue lutando, @jairbolsonaro! Ordens de mordaça, proibições em redes sociais e julgamentos motivados politicamente são ferramentas do medo, não da justiça. Você pode colocar uma tornozeleira eletrônica em um homem, mas não na vontade de uma nação!", disse Orbán em uma publicação no X (antigo Twitter).

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