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Religião

Reforma protestante e fundamentalismo religioso no Brasil

O fundamentalismo religioso produziu e tem produzido retrocessos compatíveis com o período medieval, anterior à própria reforma

Publicado em 31 de Outubro de 2023 às 01:00

Públicado em 

31 out 2023 às 01:00
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

Comemora-se hoje, dia 31 de outubro, 506 anos da Reforma Protestante, em alusão ao dia no qual o monge agostiniano Martinho Lutero, que afixou na Catedral de Wittenberg, na Alemanha, suas 95 teses, conhecidas por terem provocado um profundo abalo na estrutura da Igreja Católica, expondo suas contradições e distanciamento dos princípios basilares da Bíblia Sagrada.
Por meio dessas teses, Lutero propõe uma reforma no Catolicismo até então praticado que, segundo ele, estava sustentado em uma hermenêutica comprometida com os interesses escusos de um clero que tinha como fim não a evangelização dos povos e a fidelidade à palavra de Deus, mas a concentração do poder político e econômico na Igreja Católica.
A Reforma Protestante, movimento que se inicia sem o propósito de provocar uma cisão na Igreja, mas apenas um realinhamento com vistas a um maior comprometimento com os princípios do cristianismo, acabou por provocar uma radical ruptura abalando as estruturas da Igreja Romana.
Registre-se que a Reforma Protestante, para além dos abalos internos provocados na Igreja Católica, produziu também uma das maiores revoluções educacionais e culturais de que se tem notícias na História humana.
De um pequeno movimento religioso, concebido no interior da Igreja, a Reforma se transformou no mais desafiador projeto de ressignificação religiosa, educacional e cultural que o mundo já viveu.
Lutero não criticava apenas a venda das indulgências como meio de alcançar a vida eterna, mas o poderio econômico e político da Igreja mantido por meio do fomento ao medo do inferno e ao obscurantismo ao qual ficavam todos relegados em razão da concentração da verdade, enquanto conhecimento, ser prerrogativa exclusiva do clero. O próprio texto bíblico, lido em latim nas missas e demais ofícios religiosos, não possibilitava que todos tivessem acesso direto à verdade e pudessem assim construir suas próprias interpretações, aplicações e questionamentos.
Nesse sentido, a Reforma Protestante provocou uma mudança radical não apenas na história do cristianismo, mas, produziu transformações que influenciaram toda a sociedade, mudando o rumo da História.
Seja na educação, nas artes, na cultura, na política, nas ciências, o certo é que a influência da Reforma se fez sentir em todos os setores e em todos os cantos do mundo. As taxas de analfabetismo, inclusive entre as mulheres, sofreram redução. Os países do norte da Europa que assumiram o protestantismo, tais como, Dinamarca, Alemanha, Escócia, Suécia e Suíça em pouco mais de três séculos já mostravam os resultados da influência da reforma, com taxas de analfabetismo inferiores a 30% em 1850.
A laicidade é produto virtuoso da Reforma. A Reforma valoriza, ainda, o trabalho humano, distanciando-se da interpretação de que ele seria exclusivamente castigo de Deus para as classes menos favorecidas. Ao desvelar essa verdade, a Reforma denuncia os conflitos de interesses envolvidos nessa interpretação equivocada e tendenciosas do texto bíblico, que tinha o fim, exclusivo, de manter as pessoas pobres nos “seus devidos lugares”, sustentando uma divisão de classes incompatível com o espírito do cristianismo.
A ciência e a educação passam a ter uma nova perspectiva. Libertados do obscurantismo sustentado pelo clero, a ciência avança e a educação pública e gratuita é incentivada.
Ao romper com o Index Librorum Prohibitorum, imposto pela Igreja Católica, a Reforma Protestante promove um processo de libertação do homem para que todos tenham acesso ao conhecimento com possibilidade de, a partir de suas próprias capacidades, interpretarem o texto bíblico, compreendendo também a sua própria história.
Não foi apenas uma reforma religiosa. Foi uma reforma epistemológica. Uma mudança de lente com a qual o mundo podia ser visto e analisado.
Passados mais de cinco séculos, nos encontramos hoje, vivendo um período de trevas e de obscurantismo. O fundamentalismo religioso assumiu uma de suas faces mais perversas no Brasil. As denominações herdeiras da Reforma Protestante, no Brasil, vêm caminhando em sentido contrário ao processo de libertação provocado pelo mais importante movimento religioso e cultural de que se tem notícias na história humana.
O fundamentalismo religioso produziu e tem produzido retrocessos compatíveis com o período medieval, anterior à própria reforma. Interessante observar que as grandes propostas de transformações e avanços trazidos pela Reforma Protestante, são hoje atacadas com veemência pelo protestantismo dito tradicional no Brasil. Saindo do confortável lugar de tradições consideradas de alto apego e comprometimento com a educação e a democracia, setores importantes do protestantismo brasileiro abraçaram visões de mundo e ações de ataque à ciência e à democracia, ocupando-se exclusivamente de pautas morais e distanciando-se de seus princípios mais caros e das categorias e valores que marcaram a Reforma Protestante.
Em nome de um dito e propalado conservadorismo cristão, alguns setores religiosos denominados equivocadamente de protestantes, assumem hoje a condição vergonhosa de defensores de pautas medievais pouco afeitas ao espírito cristão revolucionário que caracterizou o ministério de Jesus Cristo e a Reforma Protestante capitaneada por Martinho Lutero, João Calvino e tantos outros que nos ajudaram a enxergar de forma ampliada nossa visão de mundo e da eternidade.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

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