Milhares de pessoas se espalham pelas ruas de Londres, por toda a Inglaterra e demais países do Reino Unido, vivendo em situação de rua.
A miséria, o desemprego e a falta de condições para manter uma moradia não são “privilégios” exclusivos de países periféricos como o Brasil.
Essa realidade também se manifesta em países centrais, ricos e poderosos como Inglaterra e EUA. Segundo dados estatísticos confiáveis, existem hoje milhares de pessoas vivendo em situação de rua em Londres, cidade que possui um dos metros quadrados mais caros do mundo.
O mesmo governo que não se ocupa em garantir condições de existência digna para todos, considerando que a moradia é direito fundamental na maioria das nações democráticas do mundo, sustenta os custos de manter uma única família, a chamada Família Real, em condições ultraprivilegiadas, ocupando suntuosos palácios, verdadeiros castelos, com milhares de metros quadrados, que exigem um exército de serviçais para manter a limpeza e o luxo reinantes.
A imprensa tem dado destaque especial à morte da rainha Elizabeth II e à coroação do novo rei, Charles III.
O Castelo de Balmoral na Escócia , o Palácio de Buckingham em Londres, o Castelo de Windsor, o Palácio de Holyrood, o Castelo de Hillsborough na Irlanda do Norte, e muitos outros que são de propriedade da Família Real são apresentados em toda a sua grandiosidade, luxo e jardins esplendorosos, milimetricamente projetados, executados e mantidos a custos incalculáveis.
A imagem dos enormes castelos e dos gramados impecavelmente limpos e podados, cercados por grades de ferro artisticamente desenhadas, mantidos com dinheiro público, sem que nenhum de seus membros efetivamente trabalhe, me remete à reflexão sobre o sentido da continuidade dessa instituição que se mostra incoerente, incompatível, carente de sentido e na contramão da complexidade dos tempos modernos e da democracia.
Enquanto isso, pessoas de todas as partes do Reino Unido se deslocam até os palácios da rainha para depositar flores, chorar sua partida, louvar suas qualidades e encantar-se com os cumprimentos breves do novo rei e dos príncipes. No mundo inteiro a imprensa se manifesta acerca das virtudes da rainha que parte e das características do rei que acaba de ser coroado.
A pergunta que se impõe é: por que manter a monarquia se ela não serve a propósito nenhum que seja digno, útil e que se justifique como interesse público, de Estado?
Meu total respeito à rainha que parte e a todos os seus familiares que sofrem a dor da perda de uma pessoa amada.
Sou profundamente solidária com a dor, a saudade e o sofrimento dos filhos, dos netos, dos bisnetos e das pessoas próximas que conviveram de perto com ela e que a amaram. Devem, realmente, estar sofrendo como também sofremos nós quando perdemos nossos queridos.
Somos nós pobres mortais que trabalhamos e, com o suor nos nossos rostos, ganhamos o pão de cada dia, contribuindo com o desenvolvimento da nação e a sustentação do Estado que deve servir a todos de forma igualitária, solidária e justa.
Todas as vezes que me pergunto para que serve a monarquia e por que ela continua a existir, a única resposta que encontro é que ela serve para nos mostrar e convencer de que há pessoas mais especiais do que as outras. Pessoas que merecem mais, têm mais direitos e são melhores do que as demais. Dolorosa conclusão.
Perpetuar o culto à monarquia, louvando seus membros e permitindo que continuem a gozar as benesses antes direcionadas aos que se apresentavam como escolhidos por Deus para uma missão é alimentar uma cultura que afronta nossa racionalidade e os direitos de todos os outros membros dessa mesma comunidade de humanos.
Acreditar e defender que os membros da Família Real merecem ser sustentados sem trabalhar e sem prestar qualquer tipo de serviço que seja relevante à sociedade é afrontar a dor e o sofrimento de tantos que nem direito a um trabalho têm. Um trabalho que lhes permita, minimamente, ter acesso a bens como casa e alimentos, para que possam viver de forma digna.
Talvez seja hora de repensar sobre a possibilidade e conveniência de se manter ou abolir definitivamente as monarquias no mundo.
A morte de Elizabeth II pode ser uma oportunidade rica para reflexões sobre o papel dessas instituições no século XXI.
O fim das monarquias não virá como proposta das elites políticas, sociais e econômicas que se alimentam de certezas quanto a uma necessária existência de povos subjugados e colonizados.
Povos que lhes oportunizaram o gozo de riquezas que não produziram e que não ajudaram a construir.
Povos que tiveram sua saúde e suas vidas comprometidas, que, colonizados, foram escravizados e explorados nas diversas colônias ao redor do mundo.
Povos aos quais a realeza impôs sua cultura e seus deuses e dos quais, surpreendentemente, ainda esperam fidelidade e submissão.
Povos dos quais ainda esperam e se acham merecedores de admiração, louvor, amor, carinho, flores e lágrimas.
Enfim, vivemos tempos de novos arranjos culturais, de ressignificação de nossos valores, de negação das ostentações e do luxo desmedido.
É preciso repensar a monarquia, que deixou para trás um histórico de violações de Direitos dos povos colonizados, ainda que sob a tutela de bons, elegantes, gentis e educados reis e rainhas.
Que os castelos, palácios e residências oficiais luxuosas fiquem apenas como memória de tempos aos quais não desejamos mais retornar.
Que todos eles se transformem em museus, espaços culturais educativos, produtores de conhecimentos e saberes emancipatórios, que fiquem na memória de nossos filhos para que eles se lembrem, sempre, da importância de superarmos tradições que não nos agregam valores e princípios de dignidade e igualdade para todos.
Deus salve o povo!