Conhecido nacionalmente pelos filmes de terror produzidos no Espírito Santo, o cineasta capixaba Rodrigo Aragão prepara uma mudança inédita na carreira. Após cerca de duas décadas dedicadas ao horror fantástico, o diretor trabalha no lançamento de “Folclórica”, primeiro longa infantil de sua trajetória.
O filme, produzido ao longo de três anos, mergulha no universo do folclore brasileiro e será inteiramente estrelado por bonecos manipulados, sem qualquer personagem humano em cena. Segundo Aragão, a proposta combina técnicas artesanais clássicas do cinema com uma narrativa voltada ao público infantil.
É um filme muito diferente. Pelas minhas pesquisas, acho que não foi feito algo desse tipo no Brasil. Não existe nenhum ser humano no filme, só bonecos. E também não tem efeito digital, é tudo artesanal
Rodrigo Aragão, cineasta
A trama acompanha Pequi, um pequeno saci que nasce com o pé esquerdo, diferente dos demais sacis, tradicionalmente ligados à sorte e à agilidade. Complexado pela condição, ele parte em uma jornada para encontrar o dente do Mapinguari, criatura lendária da Amazônia, na tentativa de mudar o próprio destino.
Ao longo do caminho, o personagem cruza diferentes regiões do imaginário popular brasileiro e encontra figuras como Curupira, Caboclo d’Água e a Pata, criatura do folclore capixaba associada à região de Guarapari.
“Eu faço uma reimaginação dessas lendas brasileiras, recriando os personagens com visuais diferentes”, explica Aragão.
Transição planejada
Apesar da mudança de gênero, o cineasta afirma que o trabalho artesanal segue como uma marca da produção. Os personagens foram construídos como marionetes e fantoches manipulados manualmente, incluindo técnicas de teatro de bonecos e animatrônicos com controle remoto.
“Teve boneco que precisava de três pessoas manipulando ao mesmo tempo. Foi um trabalho muito complexo”, conta.
O diretor também destaca que a experiência com o cinema infantil surgiu dentro de casa, durante a pandemia de Covid-19. Segundo ele, os personagens nasceram enquanto brincava diariamente com marionetes ao lado dos filhos durante o período de isolamento social.
Foi uma forma de lidar com a solidão das crianças. Eu calculo que brincamos mais de 700 horas com esses bonecos durante a pandemia
Rodrigo Aragão, cineasta
As crianças, inclusive, participaram diretamente do processo criativo do longa, funcionando como uma espécie de “consultoria” para entender os limites do medo e garantir que a história permanecesse leve para o público infantil.
“Eu me preocupei muito em não fazer um filme assustador. Às vezes, o adulto perde a noção do que pode causar medo em uma criança. Esse olhar infantil foi muito importante”, diz.
Além de apostar em um novo público, “Folclórica” também reforça a produção audiovisual local. Aragão define o projeto como “100% capixaba”, reunindo artistas, manipuladores, músicos e técnicos do Espírito Santo em todas as etapas da criação.
A previsão é que o longa comece a circular por festivais ainda este ano, antes do lançamento comercial previsto para 2027. Enquanto aguarda a estreia, Aragão afirma estar descobrindo um novo universo dentro do audiovisual.
“Passei 20 anos trabalhando com filmes de terror, então conheço todo o circuito do cinema fantástico. Agora estou conhecendo o mundo dos festivais infantis. Está sendo uma experiência completamente nova”, afirma.