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Sociedade

No Brasil, sonhar com o futuro é um privilégio de poucos

Que futuro poderá haver para todos, de forma a garantir igualdade de Direitos e oportunidades, se a política que se afirma constitucionalmente é absolutamente diferente daquela que se efetiva e concretiza no mundo real?

Publicado em 24 de Agosto de 2021 às 02:00

Públicado em 

24 ago 2021 às 02:00
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

Bandeira do Brasil
Bandeira do Brasil: morrer não pode ser um fenômeno naturalizado no país Crédito: Pixabay
Nunca, como hoje, a morte se impôs a nós como possibilidade tão concreta a nos ameaçar o direito de sonhar com o futuro.
Estamos mergulhados em um cenário de convivência tão próxima e dura com a finitude que parecemos ter abandonado, deixado para trás, bem distante, a ideia da morte como um fenômeno de caráter individual, carregado de nossas subjetividades, envolvidos nos afetos daqueles que nos são queridos, para vivenciá-la como um fenômeno coletivo, naturalizado, corriqueiro, com o qual precisamos conviver, como se fizesse parte de nossa história, não devendo mais nos provocar dor ou indignação. Naturalizamos a morte.
Não! Por mais que a fragilidade de nosso corpo, como elemento limitador de nossa existência terrena, nos imponha sua presença irrecusável, morrer não é um fenômeno a ser naturalizado, aceito como destino, independente da forma como passamos de um plano terreno para uma dimensão transcendental.
O morrer como uma condição natural da existência humana na terra não há que ser questionado, a não ser no plano de uma dimensão imaterial da existência, no qual posso, porventura, questionar a um Ser que considero sobrenatural, divino, regente da história, as razões que o levaram a criar a temporalidade como condição da existência na terra, da mesma forma que poderia ter nos presenteado como a eternidade corpórea.
Poderia a imortalidade da alma nos bastar, como tem bastado a tantos, a despeito da luta cotidiana de nos desviarmos dela, prorrogando uma existência terrena que tem se mostrado para muitos, de alguma forma, a opção por excelência a ser buscada como destino.
Pensar a fragilidade do corpo e sua condição de vulnerabilidade que nos encaminha à morte como destino inevitável não se apresenta à nós, independentemente de nossas crenças, como injustiça divina, ainda que, para alguns, os cristãos em especial, possa remeter à lembrança do castigo de Deus em razão do pecado. O destino inevitável de todos nós, a morte, não nos parece causar indignação. Apenas dor e saudade.
O que é inaceitável é a morte evitável, produzida pelas tiranias e insensibilidades humanas que corroem as possibilidades de sonharmos com o futuro e de projetarmos um destino de paz, liberdade, saúde, dignidade e vida.
É inaceitável a morte fomentada como política pública, no descaramento da corrupção endêmica, entranhada nos gabinetes do Executivo e que se movimenta com naturalidade e fluidez pelos corredores de um parlamento em busca de holofotes midiáticos ao tempo em que alimenta as contas milionárias espalhadas pelos paraísos fiscais do planeta ou a aquisição de patrimônios colocados em nomes de parentes ou laranjas que jamais serão identificados.
É, no mínimo, imoral assistir, impassíveis, à morte lenta, perversa, evitável e humilhante de milhares de pessoas que passam fome em nosso país, enquanto toneladas de alimentos são desprezados nas mesas afortunadas sem que qualquer incômodo ou drama de consciência possa causar algum desconforto que se transforme em ação para a mudança de posicionamento político que reverbere em contraposição ao fomento a desigualdade social.
Testemunhar calados os milhares de litros de agrotóxicos sendo despejados em nossos alimentos e absorvidos pela terra, contaminando irreversivelmente nossos lençóis freáticos em nome de um desenvolvimento que provoca morte lenta e doenças, é negar a nós mesmos o reconhecimento da nossa condição de seres detentores de dignidade e de direitos.
Cada liberação de agrotóxico que amplia os riscos de contaminação e morte por doenças evitáveis, enriquecendo apenas os senhores da terra e mantendo os trabalhadores empobrecidos e cada vez mais adoecidos, nos faz lembrar que sonhar com o futuro não é um direito garantido a todos.
Cada liberação de agrotóxicos que alimenta o mercado, ao tempo em que amplia a concentração de renda, enriquecendo duplamente aqueles que produzem, ao mesmo tempo, o veneno que mata e o remédio que trata o câncer que produziram, convida-nos a pensar que o futuro está reservado apenas a uns poucos escolhidos. Cidadãos de primeira classe, enquanto aos demais está destinada a doença, a miséria, a fome, a vergonha, a dor, a humilhação, o desprezo e a morte.
Que futuro poderá haver para todos, de forma a garantir igualdade de Direitos e oportunidades, se a política que se afirma constitucionalmente é absolutamente diferente daquela que se efetiva e concretiza no mundo real?
Produzir a morte, do corpo, da esperança, da dignidade, da honra, da possibilidade de sonhar, é interromper o futuro, impedindo que a vida se manifeste de forma plena e justa para todos igualmente.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

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