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Sociedade

O salário de Messi e a fila dos ossos: desigualdade que desafia a razão

O abismo que existe entre esses dois mundos a cada dia se aprofunda e acarreta uma cruel desigualdade, fazendo parecer que algumas vidas valem mais do que outras

Publicado em 16 de Agosto de 2021 às 02:00

Públicado em 

16 ago 2021 às 02:00
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

Messi exibe nova camisa do PSG
Messi exibe nova camisa do PSG, onde vai receber R$ 214 milhões de salário Crédito: Divulgação/PSG
notícia da contratação no argentino Lionel Messi pelo clube francês Paris Saint-Germain movimentou o mundo do futebol, mas também atraiu a atenção daqueles que não acompanham a vida futebolística. A divulgação do montante pecuniário que o atleta, de reconhecida competência, vai perceber, é de paralisar qualquer pessoa e suscitar a reflexão acerca de distribuição de riquezas e desigualdade social.
Confesso que quando ouvi a notícia me lembrei das centenas de pessoas que duas vezes por semana formam fila em uma rua lateral de um açougue no Centro-Oeste para receber ossos para se alimentarem. Fiquei pensando se aquelas pessoas, entre as quais pode haver alguém que já torceu pelo referido jogador, tem a noção de quanto é um salário de R$ 214 milhões.
Fiquei pensando se Lionel tem noção do que é ir para uma fila, sob o sol de Cuiabá, diga-se de passagem, a capital milionária do agronegócio, para receber um saco de osso com restos da desossa do boi para levar para casa e preparar o único alimento do dia com rastros de proteína. Fiquei pensando o que separa esses dois mundos, se em teoria, as pessoas que neles habitam são iguais em dignidade, e deveriam ter acesso aos bens e serviços, suficientes, para suprir suas necessidades para o viver. Será que uma vida precisa somente de ossos com nesgas de restos de carne e a outra de milhões por mês?
O abismo que existe entre esses dois mundos a cada dia se aprofunda e acarreta uma cruel desigualdade, fazendo parecer que algumas vidas valem mais do que outras. De acordo com a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, em 2021, somente no Brasil, 19 milhões de pessoas passam fome. Revelou a pesquisa que 55,2% da população, com a perda do poder aquisitivo, não têm acesso pleno e continuado aos alimentos, vivendo em situação de insegurança alimentar, ou seja, não fazem três refeições diárias.
A respostas para as incômodas perguntas existem. Vamos encontrá-la no porão da estrutura estratificante de exploração que é reproduzida há centenas de anos e ainda insiste em classificar pessoas e perpetuar uma situação de subalternidade colonizadora. A saída para essa questão reside na necessidade de rompimento das estruturas, por meio das fissuras que já possibilitam algum respiro, e na reinvenção sistêmica social, que consiste na inversão da lógica da exploração que insiste em reproduzir violações.
Esse enfrentamento, que já é latente, encontra, resistência de todos os lados. Aqueles que nada têm resistem para continuar vivos, mesmo que em condições desumanas. Aqueles que tudo têm resistem para não perder nem um pouco do que acumularam, ignorando a conjugação do verbo partilhar. Contudo, partilhar não é suficiente. É preciso mais. É preciso dar condições de alcance. É preciso dar o peixe, ensinar a pescar e conscientizar sobre os cuidados com o rio. Ao mesmo tempo.
Por meio de políticas públicas de transferência de renda, dá-se o peixe. Com a amplificação da educação de qualidade e garantia de trabalho com direitos garantidos, ensina-se a pescar. Com a conscientização política sobre o meio ambiente e a sociedade, garante-se qualidade de vida para todos e todas e cuida-se do rio. E assim  será possível ver o jogo todos juntos, e até torcer para que o rapaz Lionel faça um belo gol, sem se preocupar se haverá comida no prato na hora do jantar.

Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Seguranca Publica

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