As redes sociais ainda não substituíram, integralmente, o poder das ruas como veículo de mensagem aos políticos brasileiros acerca da insatisfação quanto à forma como estão conduzindo nossa democracia.
A PEC da Blindagem, ou mais adequadamente denominada pelo povo de PEC da Bandidagem, despudoradamente aprovada na Câmara dos Deputados no último dia 16, foi o estopim que faltava para o despertar da indignação coletiva que levou milhares de pessoas às ruas em várias capitais do país, nesse domingo.
A movimentação rápida e eficaz, sem a demorada e sempre importante organização para a realização de movimentos dessa natureza política, mostrou que foi ultrapassada toda e qualquer condição de razoabilidade que permitisse o respeito a uma gestão do tempo compatível com a grandeza da articulação necessária para colocar nas ruas tantos, de forma potente e vibrante, como foi alcançado.
O povo — que parecia adormecido, ou anestesiado pelas bolhas algorítmicas, condicionado apenas pelas estratégias de ódio fomentadas pelas redes sociais e pela distopia política que delas têm feito uso de forma eficiente — percebeu que, de fato, seus políticos de estimação nunca estiveram preocupados com os interesses públicos e sim com os interesses privados, seus ou de seus próprios grupos.
No exercício distópico e despótico de seus mandatos, com livre descompromisso com os interesses coletivos, sociais, democráticos e constitucionais, os deputados não perceberam que o limite tolerável havia se alargado, havendo risco concreto de ruptura, como de fato aconteceu.
A insatisfação atingiu seu grau máximo quando os políticos, com total falta de inteligência e de bom senso, ávidos em suas manobras de cada vez mais abocanharem vantagens pessoais e protetivas de suas práticas delituosas, expropriadoras dos bens públicos como se particulares fossem, se colocaram acima, inclusive, de seus próprios grupos sustentadores, eleitores ou financiadores.
Com a aprovação da PEC, assumem os deputados a desigual condição de autorizados, a priori, para o cometimento de todo e qualquer tipo de delinquência, blindados por seus iguais, muitos deles, também, em similar condição de cometedores habituais de desvios éticos e jurídicos.
O problema é que, desta vez, se colocaram em condição superior, não apenas aos integrantes dos grupos cotidianamente desprezados, ignorados e vulnerabilizados, mas de todos, indiscriminadamente, na medida em que criaram para si mesmos uma forma de blindagem de todas e quaisquer responsabilidades pelo cometimento de atos incompatíveis com os dispositivos legais, sejam cíveis, sejam criminais.
Sem outra alternativa para manifestar sua indignação, considerando que ainda estamos longe do período eleitoral que só acontecerá em 2026, o povo decide ir para as ruas dizer “basta, vocês atingiram o limite inaceitável do absurdo”.
A rua parece, assim, ser o lugar, por excelência, da manifestação de insatisfação, da revolta e do exercício livre da cidadania. De forma civilizada, respeitosa e coerente com o Estado Democrático de Direito, o povo avisa aos políticos, em alto e bom som, que se eximam de continuar caminhando nessa direção, sob pena de serem despossuídos de seus cargos nas próximas eleições ou que venham a sofrer outros tipos de retaliações, que não podemos prever.
Enquanto a bandidagem toma o Congresso, o povo toma as ruas acordando de seu sono letárgico. Ainda não sabemos se esse despertar vai se completar com outras ações e medidas, mas o certo é que a fragilidade moral do Congresso e a falta de noção acerca dos limites da política e dos acordos feitos em proveito próprio ficaram evidentes à sociedade brasileira.
A partir dessa ainda frágil “aproximação” entre esquerda e direita e da comunhão de ideias e de sentimento de repulsa, desprezo e aversão à arrogância do Congresso em acreditar-se acima do bem e do mal, aprovando a PEC da Bandidagem e a anistia, poderemos, talvez, acreditar em um compartilhamento possível de lutas contra os desvios morais vivenciados por parte dos parlamentares que compõem os quadros do Congresso Nacional.
Pedidos de desculpas manifestados por deputados que aprovaram a PEC da Bandidagem e da Anistia, após a reação de desaprovação vigorosa da sociedade civil, devem ser rechaçados e não credibilizados. Arrependimentos por medo das consequências nas urnas não podem ser aceitos nem ao menos considerados. Os que votaram favoravelmente estão comprometidos definitivamente com o absurdo moral.
O certo é que as ruas são o lugar do desconforto, do medo e do incômodo de parlamentares que se posicionaram contra os interesses do povo e a favor de seus próprios interesses. As ruas, entretanto, são o lugar do júbilo, do encontro e da alegria daqueles que lutam por justiça, por igualdade e por dignidade.
Nada substitui as ruas como lugar de encontro dos políticos com a sociedade. Nada substitui as ruas como lugar privilegiado da política e da alegria, como elementos transgressores da desordem moral na qual parecemos estar mergulhados.