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Pós-doutora em Saúde Coletiva (UFRJ), doutora em Bioética (UnB), mestre em Direito (FDV) e coordenadora do doutorado em Direito da FDV

CPI da Covid, o envelhecido machismo e o renovado feminismo

Assistimos nos últimos dias à dezenas de interdições de discursos, encetadas por senadores sempre que uma mulher representando a bancada feminina tentava fazer uso da palavra

Publicado em 01/06/2021 às 02h00
Natuza Nery rebate senador Marcos Rogério ao vivo
Natuza Nery rebateu o senador Marcos Rogério (na foto, ao centro) ao vivo. Crédito: Reprodução/GloboNews

A CPI da Covid, palco de um teatro macabro e desqualificante de muitos que por ali transitam, tem nos revelado, dentre muitos outros paradoxos e intoleráveis excrescências, que o machismo continua forte e resistente, entranhado na estrutura das instituições e capilarizado em todos os segmentos do tecido social que se esgarça a ponto de, aparentemente, não mais poder ser recomposto.

O machismo persiste na antiga, rude, agressiva e brutal estratégia de se manifestar da mesma forma e com as mesmas metodologias com as quais se sustentou ao longo dos séculos, parecendo não ter se renovado, apesar das profundas e radicais mudanças que impactaram as sociedades contemporâneas.

O domínio do macho ainda se manifesta plenamente no exercício do poder, taticamente articulado de forma a inibir toda e qualquer tentativa de sobrevivência emocional ou física por parte da mulher , agindo sempre de forma a subjugá-la, mantendo-a sob controle, submissa aos seus desejos, controlada pelo medo, seja da violência física, seja da exclusão social, seja da desqualificação que vai minando a autoestima, provocando fissuras na capacidade de falar, de agir e de posicionar-se.

Para além da violência física que mata e que machuca o corpo, a violência simbólica do falso afeto de quem afirma amar e que por isso se propõe a proteger dos perigos externos, mantendo cativo e aprisionado o “objeto” do seu amor, frágil, em sua visão, e necessitado de ser abrigado dos riscos que o universo público impõe.

Do discurso religioso baseado em uma necessária submissão feminina, justificado em interpretações bíblicas que objetivam exclusivamente a manutenção do status quo, que impede as mulheres de se manifestarem publicamente, dirigindo celebrações religiosas ou assumindo cargos de liderança no interior de algumas denominações, até a interrupção da fala, com interdição do discurso feminino no parlamento, como vem ocorrendo na CPI da Covid e em tantos outros espaços, o poder se manifesta como potência que confisca a palavra, como tentativa de ocultar a capacidade de criação, intelectiva, política ou científica das mulheres.

A interdição do discurso é arma dos incapazes, frágeis seres que por medo de enfrentarem a capacidade de outrem, escondem sua inabilidade e incompetência interrompendo a fala e impedindo que, no caso, a mulher, se manifeste em toda a extensão de sua humanidade criadora e criativa.

Assistimos nos últimos dias à dezenas de interdições de discursos, encetadas por senadores sempre que uma mulher, senadora como eles, diga-se de passagem, representando a bancada feminina, tentava fazer uso da palavra.

Independente do partido, da posição política, da objetividade do pronunciamento ou de sua importância e possível contribuição para a CPI, somente o fato de ser mulher era determinante para que a interdição discursiva tivesse lugar. Senadores de direita ou de esquerda, em maior ou menor grau, foram implacáveis em sua tentativa naturalizada de silenciar as senadoras. Ainda, em tese, mulheres consideradas poderosas e com baixa admissão de vulnerabilidade.

O Estado que afirma, em documentos e normativas diversas, defender o direito das mulheres é o mesmo que perpetua, na prática, seu discurso, procurando lembrar a ela e a todas que assistem o diálogo, que lugar de mulher continua sendo no privado e não no público. No interior da casa e não na ágora, local do debate e da política.

A interdição, o silenciamento da mulher, é como um castigo pela ousadia, um lembrete para que não crie “asas”, uma humilhação pública pelo atrevimento de achar-se capaz de falar e com direito de ser ouvida.

Mas, ao mesmo tempo em que o machismo segue seu envelhecido caminho, apesar de ainda vigoroso e eficaz, estruturalmente consolidado em instituições estatais e privadas, declarando o poder do macho sobre a fêmea, o feminismo se renova, se ressignifica, se oxigena, deixando antever o futuro, com novos tempos baseados em processos de libertação e emancipação.

Na esteira da quarta onda do feminismo, que há cerca de uma década vem se reorganizando a partir de uma nova lógica e estratégia, agora baseada no poder e na capilaridade das redes sociais, de base tecnológica, que aproxima mulheres de todo o mundo na luta contra o machismo, a violência, a misoginia e a desigualdade de gênero, as mulheres se unem em movimentos de resistência.

Elas denunciam as violações e articulam movimentos sociais que passam a ser reproduzidos em várias partes do mundo, elevando a autoestima, trazendo visibilidade a um problema sempre ocultado em uma cultura que privilegia o macho e isola as mulheres na sua dor e vergonha.

Acolhidas agora, não pelo Estado, violador por excelência, mas por outras mulheres que vivenciam a mesma aflição e impotência, mulheres de todo o mundo se unem em projetos compartilhados, de luta e de enfrentamento de um machismo estrutural, que retira direitos, que humilha e que mata.

Quando Natuza Nery se impõe diante do senador Marcos Rogério (DEM-RO) e de milhares de telespectadores, denunciando o machismo e enfrentando a cultura da interdição, ela não o faz isoladamente, por força exclusiva de sua posição social e econômica privilegiada.

Ela o faz fortalecida em um movimento que começa a despontar e que parece, agora, unir mulheres de todas as matizes em torno de uma pauta comum, que é a desigualdade de gênero, independente de outros elementos que venham a potencializar ou minimizar as violações, separando ou distanciando aquelas que deveriam se conectar com vistas e construção de estratégias eficazes para a reversão desse estado de coisas que humilha, mata, envergonha e diminui a todos que compartilham o estar no mundo em condição de dignidade e justiça.

Independente do nome e do lugar que ocupam, mulheres como Camila Valadão e Karla Coser, vereadoras de Vitória, que não se intimidaram diante do vereador Gilvan da Federal; de Natuza Nery, jornalista da GloboNews que enfrentou o senador Marcos Rogério; das senadoras Eliziane Gama, Katia Abreu, Leila Barros, que sofreram interdições e tentativas de ridicularização por parte dos senadores Ciro Nogueira, Marcos Rogério, Flavio Bolsonaro e Omar Aziz; jornalistas como Sylvia Colombo, violentamente atacadas por Bolsonaro; devem nos servir de exemplo e paradigma.

Momento de mudança requer coragem, determinação e estratégia. O novo feminismo precisa se fortalecer da ocupação de espaços, provocando fissuras nas sólidas estruturas do machismo estrutural, mas compreendendo que por trás de tudo isso há um sistema econômico que se sustenta na desigualdade de gênero, de raça e de classe.

Lutar pela equidade de gênero é também lutar para que aquelas de quem eventualmente nos distanciamos politicamente, sejam respeitadas da mesma forma que exigiríamos para alguém com quem compartilhamos ideais e crenças.

Carla Zambelli, deputada do PSL, independente de suas ideias conservadoras e sustentadoras dessa mesma estrutura que denunciamos, também teve o seu discurso interditado pelo governador João Doria de forma violenta e cruel, e deve ser objeto da mesma indignação que nos envolve nas interdições de deputadas com as quais concordamos politicamente. João Doria, um típico representante do Estado patriarcal, dificilmente interromperia o discurso de um homem, seu adversário político, ainda que durante seu pronunciamento posterior pudesse vir a atacá-lo violentamente.

Para um machismo envelhecido, extemporâneo, haveremos de forjar um novo feminismo, dialógico, estratégico, que mais acolhe as mulheres, fortalecendo suas lutas e consolidando práticas pautadas em uma cidadania que emancipa e liberta.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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