Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Retrocesso sanitário

Corte às vacinas com tecnologia mRNA: uma decisão dos EUA, um retrocesso global

Sob o comando de um negacionista da ciência, a política americana de saúde passa por sua pior crise com consequências que poderão atingir a todos nós, independentemente de onde vivamos ou dos recursos que tenhamos para nos tratar

Publicado em 19 de Agosto de 2025 às 02:00

Públicado em 

19 ago 2025 às 02:00
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

Donald Trump está, certamente, dentro do espectro do que temos denominado de governos de extrema direita. A democracia já não é mais um qualificador capaz de caracterizar com precisão a ainda nação mais poderosa do mundo.
Dia a dia, desde seus primeiros atos como presidente dos EUA, Trump deixou clara sua decisão de mudar o rumo da história americana, aproximando-se, fortemente, das ideias e ideais que caracterizam os movimentos de extrema direita que se capilarizam pelo mundo.
Muito além dos riscos econômicos e sociais do tarifaço e da tentativa de romper com todos os limites das mais elementares regras da diplomacia internacional e do respeito à soberania brasileira, com efeito pedagógico importante de imposição de medo nas demais nações, o governo Trump representa um importante risco para a saúde global, que ainda não foi devidamente compreendido ou percebido por todos.
Quando da nomeação de Robert Kennedy Junior como secretario de Estado da Saúde de seu governo, Trump sinalizou para o mundo qual seria a diretriz a nortear a política pública do setor a partir daquele momento.
O caráter privatista e mercadológico da saúde americana sempre foi de conhecimento geral, deixando à margem do atendimento e do acesso aos serviços básicos de saúde todos aqueles que não possuíam planos e seguros privados de saúde. Ao mesmo tempo, o país é conhecido como o centro de inovação e desenvolvimento científico do setor, concentrando investimentos e fomento a pesquisas científicas das mais relevantes com impacto em todo o planeta.
A hora agora é de retrocesso. Sob o comando de um negacionista da ciência, Robert Kennedy, a política americana de saúde passa por sua pior crise com consequências que poderão atingir a todos nós, independentemente de onde vivamos ou dos recursos que tenhamos para nos tratar.
No último dia 5 de agosto o governo americano anunciou um corte de 500 milhões de dólares no financiamento de pesquisas relacionadas ao desenvolvimento de vacinas mRNA contra vírus respiratórios. Robert Kennedy, um conhecido ativista do movimento antivacina, defendeu a decisão com argumentos que são facilmente desconstruídos por qualquer cientista minimamente respeitado pela comunidade científica internacional.
Importante destacar que o corte compromete não apenas pesquisas relacionadas a problemas respiratórios, mas também todas as demais pesquisas que utilizam o RNA mensageiro, que foi tão importante no desenvolvimento rápido de vacinas na pandemia da Covid-19 e que representa hoje um caminho importante para a ciência.
Pesquisadores de todo o mundo registram sua preocupação com a interrupção de pesquisas que vinham sendo desenvolvidas nos EUA e que representavam esperança para o enfrentamento de novas pandemias que se anunciam para o futuro breve.
Os argumentos utilizados por Kennedy de que o país investirá em tecnologias “mais seguras e eficazes” como as que utilizam vírus inativado é, no mínimo, assustadora, considerando o retrocesso científico que isso representa.
Vacina Pfizer-BioNTech
Vacina Pfizer-BioNTech Crédito: Carlos Alberto Silva
Retroceder em ciência, especialmente na área da saúde, significa submeter as pessoas a riscos hoje inaceitáveis. Quando imaginávamos ter superado a fase de vacinas produzidas com vírus inativados e conseguido caminhar no sentido de produção de forma rápida e segura de vacinas, com tecnologia avançada e com resposta imunológica mais eficaz, o governo americano decide correr fora das regras pactuadas para a definição da boa ciência, validadas pela comunidade científica internacional, e anunciar-se como o único capaz de estabelecer os parâmetros do que seja uma ciência “verdadeira e válida”.
Os riscos do retrocesso são inegáveis. A tecnologia mRNA utilizada no controle da pandemia e que nos permitiu sobreviver aos horrores que se anunciavam em 2020 passa a ser descredibilizada com a decisão de corte do governo Trump. O movimento antivacina sai fortalecido dessa decisão, colocando em risco não apenas a população americana, mas pessoas em todo o planeta.
A saúde não pode ser considerada a partir de uma realidade local e de decisões políticas direcionadas a uma população geograficamente situada. Os vírus não respeitam fronteiras e a saúde precisa ser pensada em uma perspectiva global e não meramente local.
Para além das vacinas utilizadas para controle das doenças respiratórias, especialmente considerando os riscos reais de ocorrência de novas pandemias, o que está em jogo é a credibilidade da ciência e a esperança de controle do câncer, doença crônica que atinge parcela significativa da população mundial, cujas pesquisas com RNA mensageiro apontam no sentido de uma mudança importante no cenário epidemiológico com as vacinas terapêuticas contra o câncer.
São mais de 100 pesquisa contra o câncer que estão em andamento e que serão diretas ou indiretamente afetadas pela decisão do governo Trump. Não é apenas o atraso científico que causa preocupação, mas a cultura da hesitação vacinal, da descredibilização da ciência e da desinformação patrocinada por governos de extrema direita como o de Donald Trump, que se alastram de forma sistemática e organizada.
É claro que países como o Brasil, China, Índia, dentre outros, irão se preparar para fazer frente à desaceleração científica dos EUA na área da pesquisa em saúde, mas o tempo lógico e cronológico necessário para atingirmos o patamar em que se encontram hoje os principais centros de investigação norte-americanos representam uma perda lastimável, considerando que a vida e a saúde são bens que devem ser preservados e garantidos por meio de políticas públicas comprometidas com a ciência, com a justiça e com a ética.
Retroceder em ciência significa a perda de uma chance para tantos que alimentavam a esperança de que ainda haveria tempo para que eles próprios se beneficiassem das novas descobertas que se mostravam possíveis em breves tempos.
A decisão americana não é só fruto da imprudência e da falta de compreensão da complexidade do tema que envolve pesquisas científicas na área da saúde. É fruto da união espúria entre debilidade intelectual, que leva um Secretário de Estado da maior economia do planeta a afirmar que vacinas contra caxumba, sarampo e rubéola contém resíduos de “fetos humanos” e que “as vacinas são piores do que os vírus que combatem”, e a crueldade alimentada e construída por um modelo de economia que não se preocupa com as pessoas, com suas vidas e com sua saúde.
Donald Trump tem reafirmado, todos os dias, com suas decisões, que seu ódio pela ciência e pelos cientistas supera toda a racionalidade necessária a um líder que conduz uma nação com a grandeza e importância dos EUA. Na medida em que a extrema direita avança, retrocedemos nas conquistas históricas que a ciência, a democracia e diplomacia nos legaram.
O retrocesso sanitário está anunciado. Caberá a nós enfrentá-lo com as armas que temos à nossa disposição. Reavivar em nós o espírito democrático é o primeiro passo para esse enfrentamento e para a guerra que se anuncia.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva durante a campanha de 2022
As sombras de Lula e Jair nas eleições de 2026 estão em aberto
Solenidade na Assembleia Legislativa do ES no século XIX
O deputado capixaba que era “imoral” (mas ele tinha razão)
Bia Schwartz, Eliana Belesa, Lara Brotas, Rachel Pires, Mariana Villas e Andrea de Pinho
Evento conecta arte, design e moda em galeria badalada de Vitória

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados