Com coautoria de Fernando Poltronieri, doutorando em Direito da FDV e advogado
O que se viu nas últimas semanas não foi exatamente um fenômeno social espontâneo, tão pouco se tratou de uma onda real de mulheres adotando bonecos hiper-realistas como filhos. O que se viu foi o colapso da nossa própria capacidade de diferenciar fato de ficção, um episódio coletivo de caos virtual, de fabricação de narrativas, de histeria digital, alimentado pelas engrenagens da desinformação, pela lógica da pós-verdade e por um sistema de manipulação das redes sociais que a extrema direita domina como ninguém.
A história dos bebês reborn viralizou como se estivéssemos assistindo a uma epidemia de insanidade coletiva, um suposto surto de mulheres que, incapazes de lidar com a realidade, teriam decidido adotar bonecos no lugar de filhos. Claro que existem casos isolados. Eles sempre existiram. E é evidente que situações de excesso, como eventuais tentativas de obtenção de atendimentos no SUS, solicitações de benefícios públicos, pensão alimentícia ou qualquer outro tipo de vantagem indevida devem, sim, ser coibidas, enquadradas e punidas com o rigor da lei.
Mas é igualmente necessário reconhecer que essas situações extremas não podem ser tratadas apenas como casos de polícia ou de escárnio público. São também alertas graves sobre a falência do sistema de saúde mental no país. Essas pessoas precisam ser responsabilizadas pelos abusos, mas também precisam ser acolhidas por políticas públicas de cuidado, acompanhamento psicológico e suporte emocional, que o Estado sistematicamente negligencia.
E é aqui que reside o ponto mais incômodo dessa discussão: por que, exatamente, ninguém faz esse mesmo escárnio quando homens gastam milhares de reais colecionando action figures, réplicas de super-heróis, jogos de videogames, espadas de séries ou sabres de luz? Por que o afeto do homem pela fantasia é tratado como hobby, como colecionismo, como expressão de paixão cultural, enquanto qualquer manifestação simbólica feminina, especialmente aquela que orbita o universo do cuidado, é automaticamente infantilizada, patologizada e reduzida à caricatura?
O fenômeno dos bebês reborn ou, mais honestamente, a maneira como ele foi capturado, manipulado e difundido, não é apenas sobre mulheres que simulam a maternidade. É, sobretudo, sobre uma sociedade que impõe à mulher, desde sempre, a maternidade como destino, como obrigação, como elemento que a completa e lhe dá sentido.
A boneca não é apenas um objeto de consolo. É, antes, a materialização da norma de gênero que insiste em dizer que só há plenitude possível para uma mulher quando ela se torna mãe. E, se não pode ser mãe de verdade, que seja, então, mãe de um boneco. Mas que não fuja, nunca, do roteiro: o colo é obrigação; o cuidado, inevitável.
A mesma sociedade que constrói essa armadilha simbólica não hesita em monetizá-la. O mercado, que nunca perde uma oportunidade, transforma dor em lucro, carência em consumo, solidão em produto. Lojas simulam maternidades, organizam "partos", vendem enxovais por preços absurdos, encenam cerimônias de adoção. Cada detalhe cuidadosamente desenhado para transformar o afeto, ou a falta dele, em capital. O capitalismo, em sua fase mais sofisticada, não vende mais apenas coisas. Vende vínculos simulados. Vende experiências emocionais empacotadas. Vende, inclusive, o simulacro da própria infância.
É claro que, nesse processo, a saúde mental também entra em cena. E entra não como preocupação social, mas como parte do espetáculo. O que viraliza não é a dor silenciosa de quem tenta sobreviver ao luto, à solidão, à depressão ou à ausência de rede de apoio. O que viraliza é a ridicularização dessa dor. É a construção de narrativas falsas que misturam casos isolados, descontextualizados, transformados em manchetes sensacionalistas, memes e combustível para o algoritmo.
O Judiciário, quando aparece, surge como parte do teatro. Supostas ações que pedem pensão alimentícia para bonecos, guarda compartilhada de simulacros, ou atendimento médico pelo SUS não são tratadas como sintomas de uma sociedade adoecida, mas como motivo de chacota pública. A pergunta mais urgente não é sobre o bom senso das decisões, mas sobre o ponto exato em que a nossa sanidade coletiva se rompeu a ponto de transformar esses episódios em linchamento simbólico nas redes.
O que se vê, afinal, não são apenas mulheres adultas brincando de boneca. O que se vê é uma sociedade inteira brincando de tribunal moral, brincando de juiz, brincando de polícia do afeto, desde que o afeto seja feminino, materno, e, portanto, permanentemente vigiado, controlado e desqualificado.
No fundo, os bebês reborn são menos sobre quem os carrega no colo e muito mais sobre quem aponta o dedo. Eles expõem, de forma cruel, o que fizemos da maternidade, o que fizemos do cuidado, e, sobretudo, o que fizemos da verdade. O fenômeno é, sim, um alerta sobre saúde mental. Mas não necessariamente das mulheres que “adotam” bonecos. É um alerta sobre o colapso mental de uma sociedade inteira, incapaz de lidar com a própria solidão, com seus vazios, com sua incapacidade crônica de oferecer laços, afeto e sentido.
No grande espetáculo da maternidade compulsória, o mercado não só monta o palco, ele também precifica o afeto, comercializa o cuidado e transforma até a solidão em produto de alto valor.