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Pós-doutora em Saúde Coletiva (UFRJ), doutora em Bioética (UnB), mestre em Direito (FDV) e coordenadora do doutorado em Direito da FDV

Ainda o custo Bolsonaro: somos um país mais violento do que éramos antes

É o custo de sermos, hoje, um dos países mais violentos do mundo, alienados de nossos projetos de paz e de nossos princípios constitucionais de solidariedade, justiça, igualdade, e dignidade

Publicado em 20/07/2021 às 02h00
Arma de fogo
Vivemos a valorização da mentira e do conflito, armado, se possível. A desvalorização da vida e da saúde. Crédito: Divulgação

Na contramão do avanço civilizatório que nos convida ao abandono da barbárie e à construção de uma cultura de paz, o Brasil de Bolsonaro adota uma política pública baseada em uma cultura de ódio, violência, desrespeito, inimizade e bestialidade elevadas ao limite da compreensão humana.

Imobilizados, sem reação à altura de realizar o enfrentamento decidido, capaz de impedir a implantação desse modo selvagem e impiedoso de perceber e tratar o outro e as instituições, nós nos quedamos angustiados pela impotência que nos diminui e que nos faz sentir a dor e a vergonha da falta de coragem de dizer:

“Basta! Há um limite para o absurdo e para a distopia na qual estamos mergulhados.”

Quem é este ser execrável e desprezível que nos governa e que faz surgir o que há de mais abjeto em nossa natureza humana?

Quem é esse ser de baixa estatura ética, fomentador de uma imoralidade que se torna endêmica, valorizada agora por tantos que antes se mostravam sensíveis e respeitosos, defensores dos valores cristãos, ou não cristãos, mas baseados no amor, na afeição, na solidariedade, na gentileza e na compaixão?

O ódio elevado às alturas. A valorização da mentira e do conflito, armado, se possível. A desvalorização da vida e da saúde. A ridicularização e objetificação do outro . A transformação dos afetos em rancores, antipatias e animosidades.

Bolsonaro e sua política de ódio tornaram o Brasil um país mais pobre, atrasado, violento, sem perspectiva de futuro, desmoralizado pelas opções empobrecidas de grandeza moral que fissuraram nossa ainda frágil, débil e esperançosa democracia.

O custo Bolsonaro se impõe como condição degradante, humilhante da dignidade que nos fazia sentir povo que luta e acredita no futuro.

Perdemos a esperança de viver em uma nação cujas riquezas naturais são respeitadas. Uma nação possível de ser construída a partir do ideal de homens livres e iguais.

Com sua política de ódio e de culto à violência, Bolsonaro transformou o país em uma nação que se alimenta da dor dos divergentes, dos empobrecidos pela política excludente e alienante, dos que “merecem” ser alijados de seus direitos enquanto dão sua energia, vida e dignidade para que alguns, poucos, os amigos da corte, se beneficiem das riquezas da nação.

O custo Bolsonaro se agiganta a cada dia, transformando o país em uma terra de mortos-vivos que não mais se reconhecem como sujeitos de direitos.

Resultados de pesquisa realizada pela Coalização Solidariedade Brasil, rede formada por 18 entidades internacionais, a violência no país se agigantou nos últimos dois anos, ampliando as desigualdades e a violação dos Direitos Humanos.

O discurso violento, de ódio, destilado pelo presidente da República, em uma vociferação de baixo nível, agressiva, com palavreados incompatíveis com a liturgia do cargo e a grandeza exigida de um dirigente máximo da nação, espraia-se pela sociedade produzindo eco na medida em que validado por lideranças religiosas e políticas que antes se resguardavam, ainda que hipocritamente, por trás de um homilia quase mística e beatificada, de sonoridade agradável aos ouvidos, ainda que não representassem a real natureza de seus emissores.

O que vemos agora são “pastores”, reverenciados em suas tradicionais e respeitáveis comunidades religiosas, alguns até intelectualizados por cursos de mestrados e doutorados realizados nos EUA, antes pregando o amor ao próximo e os valores do cristianismo, agora defendendo, despudoradamente, o porte de armas, afirmando que atirariam para matar se confrontados por algum bandido, especialmente, claro, se forem pobres e negros.

Aos bandidos de colarinho branco, entretanto, o amor e o perdão divinos.

Em apenas três anos, o Brasil dobrou o número de armas disponibilizadas para civis, passando de 637 mil em 2017 para 1,2 milhão  em 2020.

Com sua política de armamento, violência e ódio, alimentada no ideal de vingança pelas próprias mãos, Bolsonaro investe em políticas públicas, via edição de decretos e autorização para compra de armas de fogo, que, rapidamente, começam a produzir seus efeitos, aumentando em 5 % o número de mortes violentas no país.

Distanciando-se de uma diretriz internacional de respeito policial aos Direitos Humanos, no Brasil, contabilizamos 6% de aumento no número de mortos pela polícia no primeiro semestre de 2020 quando comparado com o mesmo período de 2019.

São milhares de pessoas abatidas por uma violência estimulada por um governo assumidamente racista, machista, homofóbico, violador de direitos dos que considera periféricos, sem “méritos” em razão de suas origens, crenças ou opções.

O custo Bolsonaro é o custo da violência física que mata, aliena, exclui, expropria e humilha.

O custo Bolsonaro é o custo da vergonha de aceitar a morte do corpo, da dignidade e do sonho de tantos que se acreditaram, com a Constituição de 1988, sujeitos detentores de direitos e de deveres, em um Estado Democrático de Direito, que lhes poderia tornar cidadãos de uma nação rica, próspera e democrática.

O custo Bolsonaro é o custo de sermos, hoje, um dos países mais violentos do mundo, alienados de nossos projetos de paz e de nossos princípios constitucionais de solidariedade, justiça, igualdade, e dignidade.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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