Participei recentemente do velório de um amigo querido que muito cedo se foi.
A morte é, para aqueles que ficam, mais do que nenhuma outra condição humana, um convite à reflexão sobre a história do homem na terra, sobre a relevância das coisas e das pessoas, sobre o lugar de cada uma delas em nossas vidas e, sobretudo, acerca da fragilidade do corpo e do fim inexorável de todos nós. Somos convidados à morte, desde que nascemos.
O tempo nublado e a chuva fina que caía pareciam solidarizar-se com a dor dos presentes, todos muito chorosos e inconformados com a partida precoce de alguém que amavam e que, sabiam, desejava obstinadamente viver.
Deixar os filhos, aos quais se dedicou integralmente com amor, abdicando de seus próprios interesses e aspirações, para oferecer o que de melhor seria possível a três crianças, hoje adolescentes, sempre foi sua maior preocupação.
Deixá-los antes que tivessem condições de, por si mesmos, conduzirem-se com autonomia, maturidade e independência, me parece ter se constituído na maior justificativa para seu apego à vida. Amava os filhos com um amor sacrificial, normalmente associado ao amor materno e não ao paterno.
Intelectual apurado, sociólogo, conhecedor da dinâmica da vida e das injustas e inaceitáveis condições de uma sociedade desigual, sofria ao pensar em partir deixando sem o apoio, ainda necessário, aqueles que eram destinatários de suas maiores preocupações. Na confirmação mais certeira de que não estamos no controle da história, partiu, deixando para outros a responsabilidade de concluir sua missão.
Pensando nele, neste momento, me vem à memória a imagem de um homem apressado, atravessando a rua, tendo pela mão três pequenas crianças, a quem conduzia à escola, e, diga-se de passagem, sempre nos melhores colégios, procurando dar aos filhos a melhor formação intelectual e ética.
Deixar a esposa querida, amor da maturidade, companheira de lutas, muitas lutas, amor surgido do compartilhamento de ideias, da admiração intelectual primeiro para depois, tocado pelas flechas mágicas de Cupido, deus do amor nas mitologias grega e romana, transformar-se em amor eros, romântico, lindo, transformador, definidor e marcador da história, provedor de aconchego.
Que dor imaginar partir deixando para trás os sonhos de uma vida longa ao lado da pessoa amada. Mas a morte nos convida a deixar para trás tudo aquilo e todos aqueles a quem mais amamos.
Inaceitável na perspectiva humana partir, deixando a profissão escolhida, os alunos que amava, a sala de aula, os encontros dos grupos de pesquisa, os teóricos sobre os quais gostava de debruçar-se para analisar esse tempo histórico, distópico em essência, conjuntura fértil de análises a partir das categorias desigualdade e injustiça social.
Partir, deixando para outros as orientações iniciadas, os insights fantásticos sobre Boudier, Max Weber e tantos outros autores estudados nas ricas e produtivas reflexões compartilhadas nos finais das manhãs de sextas-feiras.
No velório, tempo das despedidas, do último encontro presencial, dos abraços e dos choros compartilhados, a sensação incômoda e doída da inconveniência do tempo de partida. Era um homem ainda jovem. Um homem pleno de ideias fecundas e prontas a germinarem. A sensação de todos era de que precisávamos dele ainda um pouco mais. Como perder tanto saber acumulado, aparentemente intransferível? Como abrir mão de tanto amor acumulado, generoso, acolhedor em essência?
Um choro contido, educado e elegante unia a todos na certeza de que nunca mais estaríamos juntos.
Para os cristãos a ideia da eternidade é reconfortante, alimentadora de esperança. Imaginar um novo encontro com a pessoa amada, abraços, conversas prolongadas sem a pressão do tempo, sem a dor característica do existir na terra. Promessas de vida eterna, feliz, lá onde não há choro, tristeza ou morte.
A eternidade, entretanto, pode e deve ser pensada também em um plano da existência concreta que continuamos a viver na terra a partir da morte daqueles que amamos.
Não é só a saudade que deve ser eterna. O amor, a admiração e o respeito podem se eternizar como semente que germina e produz frutos.
Meu amigo era um intelectual sensível e acolhedor. Produtor de afetos e de incômodos intelectuais, como deveriam ser todos os professores. A academia não deve ser o lugar das certezas. Precisa ser o espaço da desestabilização dos saberes cristalizados. A ciência precisa da dúvida para que novos saberes sejam produzidos e o mundo avance.
Crítico, desestabilizador das certezas, provocador por excelência, meu amigo partiu deixando um solo fértil e propício para eternizar-se. Não cairá no esquecimento.
Seus discípulos, muitos por sinal, são convidados a construírem um projeto de eternidade que tenha como base o combate às desigualdades sociais e às injustiças, o respeito à diversidade, a luta pela democracia, o compromisso com uma educação que seja pródiga de oportunidades para todos e não apenas para alguns. Uma educação que seja generosa em afetos e acolhimento.
Enfim, uma educação que se eternize como compromisso de continuidade do mesmo projeto de sociedade.
A eternidade é uma possibilidade para o amor entre um homem e uma mulher que juntos construíram uma história linda que ficará como compromisso de padrão de qualidade a ser perseguido nos afetos.
A eternidade é uma possibilidade para os filhos, herdeiros de um amor incondicional, que um dia, quando forem pais e mãe, compreenderão a grandeza de terem sido amados de modo tão intenso e compromissado.
A eternidade na terra é uma condição de possibilidade que está à nossa disposição.
A morte não é o fim. No plano transcendental, da fé, é um conforto para os que ficam. No plano terreno, da continuidade dos que aqui permanecem, para além da saudade, é o começo de uma história de compromissos com a construção da eternidade.