Somente a morte nos iguala de forma definitiva e derradeira. Ainda que tenhamos avançado muito nas lutas por conquistas de direitos, tais como liberdade, igualdade e dignidade, o certo é que o sonho da igualdade é pura utopia na perspectiva humana.
A desigualdade, seja ela de que natureza for, sempre se imporá como uma realidade concreta, impossível de ser desconstruída de forma plena e definitiva. Lamentavelmente, nós nos acostumamos, naturalizamos e aceitamos a desigualdade como condição da nossa humanidade.
A positivação do direito à igualdade nas constituições e no aparato normativo de diversos países avançou. Hoje, centenas de países incluem em suas Cartas Magnas dispositivos que impõem a igualdade como um direito humano fundamental.
Entretanto, na prática, somos convidados/estimulados a ignorar o direito à igualdade material, substancial, concretizada no mundo da vida, nos contentando em tê-la positivada nos textos constitucionais, sem que, de fato, esse direito seja garantido a todos de igual forma.
As comemorações do Dia de Finados no Brasil, do Dia dos Mortos no México e do Dia de Todos os Santos na Europa, celebrações com perspectivas diferentes em cada país, deveriam, na realidade, nos servir de memória, de alerta e de convite à compreensão de que a morte é nosso único caminho comum.
Morreremos todos e nossos corpos se tornarão igualmente pó, independentemente de nossas condições financeiras, de nossas posições sociais, de morarmos em palácios ou nas ruas, de sermos pretos ou brancos, de sermos celebridades ou homens e mulheres comuns do povo, de sermos bonitos ou feios, novos ou velhos, amados ou odiados.
Morrer é nossa única certeza em vida, no plano material. A igualdade substantiva, real e concreta somente será alcançada na morte, destino de todos nós.
Seja na sobriedade e solenidade com que se vivencia o Dia de Finados no Brasil, no qual os túmulos são limpos, visitados e adornados com flores e uma certa melancolia e tristeza parecem se impor, seja nos altares aos mortos em outros países, nos quais velas, flores, comidas e oferendas são deixadas.
Seja nas celebrações festivas do Dia de Muertos no México, reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco, no qual um multicolorido se destaca, e lindas e adornadas Catrinas, figuras de caveiras, passeiam pelas cidades e desfilam em longos e alegres cortejos, o Pan de Muerto é distribuído e a Flor de Cempasúchil (cravo-de-defunto), com seu alaranjado intenso, é espalhada pela cidade.
O certo é que a morte precisa ser trazida à memória, como lembrança daquilo a que todos retornaremos, qual seja, o pó da terra, independentemente do valor do caixão no qual sejamos sepultados.
Celebrar a morte, seja com melancolia, como no Brasil, seja com festas e alegria, como no México, deve ser momento de exaltação e luta por igualdade material, direito de todos e dever do Estado.