Três cenas fortes impactaram minha retina e meus ouvidos nos últimos dias, transformando minhas noites em pesadelos e meus dias em momentos de reflexão e perplexidade, permeados por angústia e medo:
1) A cena de uma criança dançando em cima de um carro com uma arma na mão enquanto, ao redor, pessoas comemoravam o resultado do primeiro turno das eleições.
2) A jovem deputada estadual de extrema-direita, eleita por São Paulo com quase 2 milhões de votos, mulher de 23 anos, que se declara a maior inimiga das feministas, que defende a não existência do feminicídio e teve sua mente capturada, fazendo-a perder o mínimo de cognição necessária para o exercício da vida pública.
3) A deputada federal Julia Zanatta por SC, campeã de votos, caminhando pela cidade em comemoração à sua vitória nas urnas, com sua coroa de flores, símbolo germânico que também foi associado ao nazismo, e um chicote nas mãos, repetindo de forma ensandecida “dar de relho”.
Cada uma dessas cenas evidenciava uma realidade que se impõe, começa a se tornar modus vivendi naturalizado e característico dos tempos distópicos que se avizinham e já começa a se transformar naquilo que se denomina paradigma.
Na perspectiva da filosofia, paradigma nada mais é do que um conjunto de concepções e valores que, em um dado tempo histórico, são compartilhados por muitos e passam a servir de modelo validado, repetido e naturalizado.
No início, esses comportamentos nos assustam, nos causam espanto e são rechaçados e criticados por infringirem normas éticas e jurídicas que norteiam nossa vida em sociedade.
Aos poucos, entretanto, vão perdendo o caráter de novidade, de absurdo e de assombro.
Eles vão sendo incorporados ao nosso cotidiano, repetidos que são por outros que ainda não haviam tido a coragem de se manifestar da mesma forma; agora, porém, esses comportamentos encontram eco e vão sendo reverberados.
Os iguais se encontram e reforçam comportamentos antes evitados, fosse por vergonha ou temor do desprezo social que causavam. Na medida em que esses “semelhantes morais” se encontram e se fortalecem mutuamente, novos pactos sociais vão sendo estabelecidos e os pactos civilizatórios antes consolidados começam a ser fragilizados, rompidos, até que um novo paradigma se estabelece.
O escárnio, a violência, o desrespeito ao outro e às instituições, a falta de pudor e de tolerância vão criando modelos que passam a orientar o modo como compreendemos o mundo e como passamos a nos conduzir em sociedade.
Novas relações se estabelecem e esse novo arquétipo vai se consolidando, deixando para trás o paradigma anterior, no caso, um paradigma modelado a partir de pactos civilizatórios respeitosos da dignidade e dos Direitos Humanos.
Crianças devem ser chamadas, educadas, conduzidas e forjadas para a paz, para o respeito, para a tolerância e para o amor. O ódio não pode ser o arquétipo ensinado e transmitido às crianças como modo de ser no mundo.
A atitude do pai que forneceu uma arma e permitiu que seu filho a portasse, amplamente difundida nas redes sociais, deveria nos causar asco e repulsa, sendo objeto de repressão social e moral.
O adulto responsável pela criança deveria ser responsabilizado social e juridicamente por seu ato permissivo e violador do direito da criança a ter uma educação condizente com sua idade e vulnerabilidade.
A tolerância tem como limite o intolerável ético-jurídico. Não podemos tolerar o intolerável. Não podemos aceitar e naturalizar a distopia e a barbárie como modos de ser no mundo.
É preciso, todos os dias, nos lembrarmos de nossos acordos morais, de nossos pactos civilizatórios e da memória da dignidade humana, que deve ser objeto de nosso esforço cotidiano.