Recuperar senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Cadastrar nova senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Elda Bussinguer

O intolerável não pode ser tolerado

É preciso, todos os dias, nos lembrarmos de nossos acordos morais, de nossos pactos civilizatórios e da memória da dignidade humana

Publicado em 13 de Outubro de 2026 às 04:00

Públicado em 

13 out 2026 às 04:00
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer Elda Bussinguer

Três cenas fortes impactaram minha retina e meus ouvidos nos últimos dias, transformando minhas noites em pesadelos e meus dias em momentos de reflexão e perplexidade, permeados por angústia e medo:


1) A cena de uma criança dançando em cima de um carro com uma arma na mão enquanto, ao redor, pessoas comemoravam o resultado do primeiro turno das eleições.


2) A jovem deputada estadual de extrema-direita, eleita por São Paulo com quase 2 milhões de votos, mulher de 23 anos, que se declara a maior inimiga das feministas, que defende a não existência do feminicídio e teve sua mente capturada, fazendo-a perder o mínimo de cognição necessária para o exercício da vida pública.


3) A deputada federal Julia Zanatta por SC, campeã de votos, caminhando pela cidade em comemoração à sua vitória nas urnas, com sua coroa de flores, símbolo germânico que também foi associado ao nazismo, e um chicote nas mãos, repetindo de forma ensandecida “dar de relho”.


Criança com arma na mão no Rio Grande do Norte
Criança com arma na mão no Rio Grande do Norte Redes sociais

Cada uma dessas cenas evidenciava uma realidade que se impõe, começa a se tornar modus vivendi naturalizado e característico dos tempos distópicos que se avizinham e já começa a se transformar naquilo que se denomina paradigma.


Na perspectiva da filosofia, paradigma nada mais é do que um conjunto de concepções e valores que, em um dado tempo histórico, são compartilhados por muitos e passam a servir de modelo validado, repetido e naturalizado.


No início, esses comportamentos nos assustam, nos causam espanto e são rechaçados e criticados por infringirem normas éticas e jurídicas que norteiam nossa vida em sociedade.

Aos poucos, entretanto, vão perdendo o caráter de novidade, de absurdo e de assombro. 


Eles vão sendo incorporados ao nosso cotidiano, repetidos que são por outros que ainda não haviam tido a coragem de se manifestar da mesma forma; agora, porém, esses comportamentos encontram eco e vão sendo reverberados.


Os iguais se encontram e reforçam comportamentos antes evitados, fosse por vergonha ou temor do desprezo social que causavam. Na medida em que esses “semelhantes morais” se encontram e se fortalecem mutuamente, novos pactos sociais vão sendo estabelecidos e os pactos civilizatórios antes consolidados começam a ser fragilizados, rompidos, até que um novo paradigma se estabelece.


O escárnio, a violência, o desrespeito ao outro e às instituições, a falta de pudor e de tolerância vão criando modelos que passam a orientar o modo como compreendemos o mundo e como passamos a nos conduzir em sociedade.


Novas relações se estabelecem e esse novo arquétipo vai se consolidando, deixando para trás o paradigma anterior, no caso, um paradigma modelado a partir de pactos civilizatórios respeitosos da dignidade e dos Direitos Humanos.

Veja Também 

Imagem de destaque

A nova arquitetura do poder no Brasíl pós-eleição de 2026

Bíblia

O fundamentalismo religioso na política brasileira

Sessão plenária do STF - 16/09/2026

Integridade pública e a perda da confiança no STF

Crianças devem ser chamadas, educadas, conduzidas e forjadas para a paz, para o respeito, para a tolerância e para o amor. O ódio não pode ser o arquétipo ensinado e transmitido às crianças como modo de ser no mundo.


A atitude do pai que forneceu uma arma e permitiu que seu filho a portasse, amplamente difundida nas redes sociais, deveria nos causar asco e repulsa, sendo objeto de repressão social e moral.


O adulto responsável pela criança deveria ser responsabilizado social e juridicamente por seu ato permissivo e violador do direito da criança a ter uma educação condizente com sua idade e vulnerabilidade.


A tolerância tem como limite o intolerável ético-jurídico. Não podemos tolerar o intolerável. Não podemos aceitar e naturalizar a distopia e a barbárie como modos de ser no mundo.


É preciso, todos os dias, nos lembrarmos de nossos acordos morais, de nossos pactos civilizatórios e da memória da dignidade humana, que deve ser objeto de nosso esforço cotidiano.


Elda Bussinguer

Elda Bussinguer Elda Bussinguer

Pós-doutora em Saúde Coletiva (UFRJ), doutora em Bioética (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitária

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Sabatina CBN com Evair de Melo, candidato ao Senado Federal
Os segredos de Evair de Melo na votação para o Senado
Pastor e colega de trabalho foram mortos a tiros em bairro de Viana no dia 23 de julho de 2024
A lei e a ordem precisam mostrar que são mais fortes que as investidas do tráfico
Imagem de destaque
Tarot do dia: previsão para os 12 signos em 13/10/2026

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados