A poucos dias das eleições, o país está mergulhado em uma deplorável guerra de narrativas direcionadas a conquistar, especialmente, os votos dos evangélicos que ainda não se decidiram ou que preferem não declarar seu voto.
Tantos ainda resistem e lutam pela liberdade de escolher seus próprios candidatos, sem a interferência de lideranças religiosas que querem transformá-los em ovelhas dóceis, encabrestadas em discursos apocalípticos, provocadores de medo e culpa.
Eles sofrem com o assédio explícito de pastores comprometidos com interesses pessoais de poder e riqueza, que em nada condizem com o espírito do autêntico cristianismo.
Na tentativa de emplacar seus candidatos, transformam os adversários políticos em inimigos de Deus, utilizando-se do argumento de autoridade que, em tese, está conferida aos ungidos, apresentados como profetas que transmitem ao povo qual é a vontade de Deus.
Essa estratégia de domínio e manipulação da vontade dos fiéis, sem qualquer base bíblica, faz com que a palavra dessas lideranças tenha força normativa, declaratória de quais candidatos são os escolhidos para uma missão e quais são os inimigos de Deus e que, portanto, devem ser repudiados pelos evangélicos.
A laicidade é princípio constitucional norteador da relação Igreja e Estado, diretriz fundamental para a proteção da integridade da fé, e preservativa da liberdade de consciência. Tem como objetivo principal evitar que o autoritarismo e o sectarismo religioso transformem cidadãos em ovelhas obedientes e submissas às lideranças. Essa laicidade é ignorada, em uma manifestação de absoluto desprezo pela Constituição.
O desprezo doutrinário às confissões de fé e às suas diretrizes segue na mesma direção. A laicidade, defendida por grandes teólogos protestantes como Martin Lutero no século XVI, Karl Barth e Dietrich Bonhoeffer no século XX e tantos outros, está sendo sistematicamente atacada.
Essa perspectiva teológica, que se contrapõe à laicidade e ao avanço dos direitos civis, em especial os direitos das mulheres, abraçada por cristãos conservadores, tem sua gênese no neoconservadorismo norte-americano. Surge entre as décadas de 1970 a 1980 e se baseia na ideia de que os cristãos devem dominar todos os setores da vida pública, impondo ao Estado os valores do cristianismo, por meio da política, da educação, da economia e até da imprensa.
A tolerância religiosa, princípio constitucional e doutrinário, nada mais significa do que letra morta da lei, desprezada por um importante segmento do evangelicalismo brasileiro que decidiu abrir mão dos princípios defendidos anteriormente, abraçados que estão ao ideal de ter um país a chamar de seu.
A ideia de um Estado Teocrático sempre povoou o imaginário de alguns segmentos ditos cristãos. Há uma absoluta dissonância entre o conservadorismo que afirmam defender e a conduta moral com que regem suas vidas pessoais. Restrições comportamentais para os outros e liberdade moral para si próprios. De um modo geral, estão envolvidos corpo e alma com estratégias corruptoras e corruptivas.
Não é mais o AMOR como selo do cristão como afirmava Jesus em João 13:35 “Nisso todos conhecerão que são meus discípulos, se vos amardes uns aos outros”
Não é mais a PAZ como ideal e busca cotidiana de todos nós, como encontramos em Mateus 5:9: “Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus”
Não é mais a VERDADE como caminho para a nossa liberdade conforme está em João 8:32, em que podemos ler "E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará"
Não é mais o POBRE como opção preferencial, como aquele em quem devemos enxergar o Cristo, como encontramos em Mateus 25:40 "Em verdade vos digo que, quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes"
É o ódio, a violência, a guerra, a mentira e a opção pelos ricos, que se constituem hoje na matriz de uma religiosidade que tenta tomar o Estado e entregá-lo àqueles que tem projetos pessoais de acumulação de riquezas e de perseguição a todos que não lhes prestam obediência cega.