O Brasil vivenciou no último dia 25 de outubro sua eleição mais dramática e acirrada. Não venceu Lula, venceu a democracia representada por ele e a possibilidade de vivermos em uma nação livre, na qual as regras do jogo democrático são, minimamente, respeitadas.
Dois modelos de Estado se enfrentaram nas urnas: Estado democrático e Estado autoritário anárquico. Discordo daqueles que afirmaram, durante todo o processo, que os candidatos se perderam em acusações mútuas e não fizeram o dever de casa de apresentar à sociedade os seus projetos de governo, para que todos pudessem escolher com discernimento.
As propostas de governo dos dois estavam muito claras. Só não via quem estivesse em estado de alienação política social ou deliberadamente fechado para realizar o processo analítico necessário à tomada de decisões para o voto.
Bastava acompanhar a história dos dois candidatos e os discursos que proferiram ao longo da vida, fora dos debates oficiais e dos documentos denominados “projeto de governo”, que ali encontrariam o necessário para uma escolha consciente.
O que estava em jogo durante todo o processo eleitoral não era uma opção por um candidato que se comprometia com isso ou aquilo, ações isoladas, mas o que representaria um governo liderado por Lula ou por Flávio Bolsonaro.
Quando escolhemos um modelo de Estado, de alguma forma escolhemos o projeto de governo que será implementado ou, pelo menos, os princípios que nortearão a tomada de decisões.
O que estava em jogo não era gostar ou não de Lula, considerá-lo o candidato perfeito ou o mais adequado para governar o país. Também não era gostar ou não de Flávio Bolsonaro, considerando ser necessário que uma pessoa mais jovem e arrojada comandasse o país.
Não era isso, e todos que estavam interessados, de fato, nas eleições, de alguma forma sabiam disso. De fora ficam apenas os que, seja por circunstâncias da vida, seja por opção, permaneceram em estado de alienação voluntária ou alienação produzida socialmente.
O modelo de Estado autoritário anárquico, miliciano, sempre foi defendido por Flávio, desde o início de sua vida política. Ele não escondeu nada. Nesse sentido, foi honesto. Os que, consciente e intencionalmente, fizeram opção por ele, de alguma forma sabiam disso.
Ele, sua família e seus correligionários sabiam exatamente o que representaria um governo comandado por Flávio. Dessa afirmação, excluo os que tiveram suas mentes capturadas por manipulações religiosas ou por qualquer outra estratégia de captura. A democracia nunca foi uma unanimidade. Os projetos autoritários sempre encantaram a alguns.
Flávio sempre defendeu as milícias, o armamento, a violência, especialmente contra as mulheres e os mais vulneráveis, a misoginia, a homofobia, o racismo, o classismo, a destruição dos aparelhos de Estado, a privatização radical, a quebra da institucionalidade, o golpe, a retirada dos direitos trabalhistas, a hipocrisia, a dissociação absoluta entre verdade, realidade e discurso, o distanciamento dos princípios éticos e morais, a destruição do meio ambiente, o negacionismo, a intolerância religiosa e a implantação de um Estado religioso no qual os líderes podem fazer tudo o que desejam, inclusive orgias, e os fiéis devem se submeter a um controle moral absoluto.
Lula sempre defendeu a paz, o desarmamento da população, a valorização do trabalho e dos trabalhadores, a defesa dos direitos trabalhistas, a igualdade, o respeito à institucionalidade democrática, a proteção social, moradia para todos, o combate aos privilégios fiscais, a tributação das altas rendas, a defesa inconteste do meio ambiente, da educação e da saúde e de todas as demais políticas sociais, a defesa das mulheres e da dignidade da pessoa humana.
Quem escolheu de forma consciente sabia o que estava escolhendo, sendo, portanto, responsável por suas escolhas.
Passadas a euforia inicial daqueles que escolheram Lula e seu modelo de Estado e saíram vitoriosos das urnas, de um lado, e a frustração daqueles que apostaram em Flávio e em seu projeto de Estado e foram derrotados, de outro, é preciso reconhecer que, de alguma forma, todos perdemos um pouco. Essa é uma vitória de sabor amargo.
Precisamos, a partir de agora, encontrar os caminhos que possam, minimamente, nos levar a uma convivência pacífica, mantendo viva a esperança de que tempos melhores virão e que a democracia se tornará, um dia, um projeto de todos e não apenas de alguns.