Recuperar senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Cadastrar nova senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Elda Bussinguer

A morte da razão e da decência

Alguns, mais determinados e rápidos a sair do estupor, desligaram a televisão, na expectativa de acordar do pesadelo

Publicado em 20 de Outubro de 2026 às 04:05

Públicado em 

20 out 2026 às 04:05
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer Elda Bussinguer

Assisti, com profundo sentimento de desalento, ao debate ocorrido na noite de domingo (18) entre os dois candidatos à presidência da República.


Um espetáculo dantesco se descortinou por cerca de duas horas diante de nossos olhos, mostrando que a capacidade humana de produzir absurdos continua pródiga e carregada de sementes ainda a germinar.


A distopia, o caos, o deboche e o desrespeito explícito são a representação de um novo paradigma que começa a ser compartilhado por muitos, na medida em que é aceito, não questionado e naturalizado.

Flávio Bolsonaro e Lula no debate da Band
Flávio Bolsonaro e Lula no debate da Band Reprodução/Band/YouTube

Por mais fértil que fosse minha imaginação ao projetar o que poderia acontecer naquela noite, jamais poderia imaginar que chegaríamos ao ponto do absurdo do ilusionismo que fomos constrangidos a presenciar, em que realidade e ficção eram de tal forma apresentadas que já não éramos capazes de distinguir entre o que fazia parte do mundo físico, palpável, objetivo, autêntico ou real e a fantasia mítica de um mundo imaginário.


A falta de conexão entre perguntas e respostas foi absoluta. Na prática, é como se o formulador da questão a fizesse em português e o respondente, que não falasse e não compreendesse a língua, respondesse qualquer outra coisa em húngaro, língua de matriz urálica, sem qualquer liame com a estrutura linguística de matriz latina como o português.


Ao público, perplexo, restava quedar-se incomodado, desrespeitado e paralisado, sem qualquer capacidade de justificar o tempo perdido, esperando que algo pudesse acontecer para restaurar a racionalidade perdida.


Alguns, mais determinados e rápidos a sair do estupor, desligaram a televisão, na expectativa de acordar do pesadelo. Não imaginavam eles que o pesadelo talvez pudesse acompanhá-los, na medida em que se pusessem, no travesseiro, a pensar nos riscos decorrentes do resultado das eleições.

Veja Também 

Criança com arma na mão no Rio Grande do Norte

O intolerável não pode ser tolerado

Imagem de destaque

A nova arquitetura do poder no Brasíl pós-eleição de 2026

Bíblia

O fundamentalismo religioso na política brasileira

Imagino, compadecida, a situação dos jornalistas que conduziam o espetáculo, sem qualquer controle do palco e da plateia, sonhando, certamente, com a conclusão do debate a fim de que pudessem bater o martelo e anunciar que o tempo havia se encerrado e que o debate, tortura mental vivenciada, estava concluído.


Se a imprensa, a televisão em especial, uma das estruturas de poder mais consolidadas, chegou a estabelecer as regras de civilidade, respeito e integridade que não foram seguidas, não há o que esperar do futuro e da democracia. O intolerável já foi tolerado e passa a se constituir o novo normal.


A pergunta que se impõe a nós neste momento é se estaremos nós, pobres mortais, assistindo aos estertores finais, indicativos da morte da razão, da verdade e das luzes, retrocedendo a tempos anteriores à Idade das trevas, quando a modernidade e a ciência ainda não haviam nos ajudado a iluminar a escuridão da ignorância, da estupidez e da ausência de senso ético/político e jurídico. 

Elda Bussinguer

Elda Bussinguer Elda Bussinguer

Pós-doutora em Saúde Coletiva (UFRJ), doutora em Bioética (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitária

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Acima: Neucimar Fraga, Marcelo Santos, Tyago Hoffmann e Messias Donato; abaixo, plenário da Câmara
Os 5 segredos retirados das urnas no ES na disputa para a Câmara Federal
Urna eletrônica
O silêncio dos ausentes precisa ser superado no segundo turno
Imagem de destaque
Tarot do dia: previsão para os 12 signos em 20/10/2026

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados