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Crise

A era Trump decreta o fim da diplomacia

As redes sociais são canais informais importantes para a socialização de dados e comunicações não oficiais. Não podem nem devem servir para veicular comunicação entre governos que representam Estados soberanos e democráticos

Publicado em 15 de Julho de 2025 às 03:00

Públicado em 

15 jul 2025 às 03:00
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

Trump, o homem mais poderoso do mundo, presidente da nação, ainda hoje, mais poderosa do mundo, decreta o fim da diplomacia e, consequentemente, de todos os proveitos civilizatórios que ela nos legou.
Uma, aparentemente, singela carta, postada nas redes sociais, na qual o presidente americano achincalha com uma nação soberana, como o Brasil, sem ao menos se dignar a fazer uso dos canais normais, protocolares, utilizados para as comunicações entre governantes, é demonstrativa de que a diplomacia, com seus ritos de respeito e consideração, já não tem mais valor e podem ser desprezados.
As redes sociais são canais informais importantes para a socialização de dados e comunicações não oficiais. Não podem nem devem servir para veicular comunicação entre governos que representam Estados soberanos e democráticos. A carta de Trump que chega à presidência do Brasil ao mesmo tempo chega aos cidadãos em geral, independentemente do conteúdo, não é um arroubo tresloucado de um presidente sem noção, enlouquecido e despreparado para o cargo.
Ela é representativa de um modus operandi, adotado pela extrema direita, ditatorial, arrogante, desrespeitosa, violenta, incivilizada, que Trump tão bem representa e capitaneia.
A questão não é Bolsonaro, não é a tarifa de 50% imposta aos produtos brasileiros, não é a proteção à economia americana. Ela faz parte de um jogo político muito bem avaliado e articulado por Trump, como parte de um projeto político ditatorial de expansão do poderio americano e de consolidação do poder do próprio presidente que se vê acima do bem e do mal e que acredita representar o único caminho possível, para o controle do mundial.
O espírito da mensagem está claramente exposto no veículo e no conteúdo. É tentativa de imobilização e subserviência pelo sentimento de impotência, dependência e apreensão que produz. Taxá-la de inconsequente e de tratar-se de medida imediatista e intempestiva é, no mínimo, efetuar uma análise simplista diante da grandiosidade do problema.
Na carta dirigida ao Brasil, Trump manda recado a todas as outras nações do mundo. É como se dissesse: “Vocês estão todos sob o domínio de minha caneta e dos meus desejos”; “o mundo terá um imperador a partir de agora e esse sou eu” ou, ainda, “preparem-se, assim como fiz com o Brasil, farei com cada uma das outras 193 nações do mundo”.
O clã Bolsonaro, iludido de seu poder e influência junto a Trump, subjaz depreciado, manipulado e desprezado dentro da perspectiva colonial trumpista. Não há amor pelos Bolsonaros e nem admiração alguma que faça o homem mais poderoso do mundo gastar suas energias em atacar o Brasil para que Lula e o Supremo Tribunal Federal se movam no sentido de libertar Bolsonaro e sua gangue dos tentáculos virtuosos da Justiça brasileira.
Para Trump pouco importa se Bolsonaro irá apodrecer na cadeia ou permanecer gozando as benesses do que abocanhou em sua trajetória política, no parlamento, na presidência ou em suas articulações com grupos marginais do Rio de Janeiro.
O presidente americano está disposto e decidido a utilizar todas as suas forças no sentido de minar toda e qualquer tentativa de independência que tenha capacidade de prosperar, seja em relação aos países do Oriente Médio, seja da Europa, seja da América do Sul.
O Brics é, sim, um potente motivador para demandar energia de Donald Trump. Os possíveis riscos decorrentes das articulações do banco e de criação de uma nova moeda que venha a fazer frente ao poderio do dólar como moeda mundial a comandar a economia global mexem com os brios de candidato a imperador do mundo.
O presidente dos Estados Unidos Donald Trump
O presidente dos Estados Unidos Donald Trump Crédito: Reprodução | The White House
Constranger o STF, o Executivo e até o próprio Parlamento, os Três Poderes da nação brasileira, é estratégia de imposição da força pelo medo e pela violência, simbólica ou não. A força imobilizadora da mensagem dirigida ao Brasil é projeto meticulosamente pensado, revisado, escrito e reescrito nos mínimos detalhes, por alguém que está longe de ser um homem dominado por emoções triviais e temporárias.
O tarifaço de Donald Trump sobre o Brasil e o mundo tem o condão de provocar uma reviravolta na economia mundial. Não há quem fique de fora dos estilhaços decorrentes da artilharia do presidente americano.
O assustador crescimento da economia dos países do Brics é motivo mais do que suficiente para o candidato a imperador do mundo se movimentar de maneira aparentemente tão insana.
A guerra está só começando. É o princípio das dores. São muitas as hipóteses a serem formuladas sobre as consequências desse projeto. Entrelaçam-se aqui em uma complexidade assombrosa projetos pessoais de Trump, projetos capitaneados pela extrema direita que cresce em todo o mundo, projetos dos donos das cinco maiores big techs e projetos do 1% que detêm 99% das riquezas mundiais.
O que resultará disso é algo inimaginável por qualquer analista da política e da economia. Uma coisa, entretanto, é certa: somente a força do coletivo é capaz de brecar as investidas, até agora eficazes, desses grupos. Seja de nações que se unem a despeito de suas diferenças para resistir ao avanço do poderia americano, seja das forças sociais, que começam a ser articular em todo o mundo contra o injusto sistema de economia capitalista neoliberal, que amplia as desigualdades sociais mantendo homens e mulheres sob o julgo desumanizador do capital.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

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