A campanha eleitoral de 2026 já começou e a modelagem estratégica que será utilizada já está definida e sendo testada. Pelo que é possível perceber, a violência é a tática contemporânea mais eficaz a produzir efeitos quantitativos, nas urnas, para aqueles que dela se utilizam ou que a defendem.
O que antes estava relativamente restrito ao campo discursivo como estratégia fomentadora de sentimentos que se manifestavam em discursos de ódio, tal como aconteceu nas duas últimas eleições, hoje se manifestam claramente direcionadas a demonstrações de poder que implicam visualização de sangue e de corpos estendidos no chão, especialmente se ocorrerem nas favelas brasileiras ou em bairros de periferia, nos quais moram pessoas pobres e pretas.
A criminalização da pobreza e da cor é fenômeno conhecido no Brasil desde tempos pretéritos. Ela não surge espontaneamente como fenômeno incontrolado e despercebido. Ela é uma construção social gestada por interesses políticos e econômicos que pretendem manter “tudo como dantes no quartel do Abrantes”.
Ou seja, quando foi “necessário” acabar com a escravidão e não havia como resistir a isso, como o foi em 1888, quando a pressão internacional levou o Brasil à libertação da escravidão, bastou que fosse criada uma forma de escravidão modernizada, disfarçada, mascarada de liberdade e de cidadania, para que o sistema se mantivesse intacto, sem que houvesse solução de continuidade nas estratégias de manutenção de privilégios e de poder das classes dominantes.
O Brasil manteve o regime escravocrata na medida em que deixou os escravizados à margem de direitos e de possibilidades de exercício pleno da cidadania, excluídos social e economicamente. Jogados na marginalidade, naquele momento, e hoje transformados em operadores baratos dos grandes senhores do crime, corpos validados socialmente para a morte, desumanizados, embrutecidos pela dor, pela falta de direitos, de sonhos e de esperança de futuro.
Matar pretos e pobres dá ibope e faz crescer as estatísticas eleitorais de políticos descompromissados com a verdade e com a vida. O apoio político ao governador Claudio Castro após a chacina do Alemão e da Penha, impensável em uma perspectiva de qualquer racionalidade e humanidade, é demonstrativo real e objetivo, de nossa incapacidade de chegar ao coração e à mente das pessoas, mesmo daquelas que são as vítimas do sistema opressor que as mantém na condição eterna de oprimidas, escravizadas por um sistema que as condiciona a um permanente e sistemático estado de vulnerabilidade e dependência.
As estatísticas evidenciam a patologização da política e o apodrecimento ético de uma sociedade adoecida de valores e de condições para que todos consigam se perceber, igualmente, como sujeitos de direitos, que vivem sob a égide de um Estado Constitucional, democrático de direito.
O que revelam os dados estatísticos posteriores à chacina do Rio de Janeiro? Claudio Castro subiu nas pesquisas, recebendo validação social para continuar a matar pessoas. Se pensarmos que 8 em cada 10 moradores das favelas do Rio de Janeiro, mais precisamente, 87,6%, aprovam a ação de extermínio realizada pelo governador, que produziu 121 mortos, alguns deles sem qualquer passagem pela polícia, e que esses números de apoio se reproduzem entre moradores de favelas de todo o país (80,9% de aprovação), é possível concluir que a distopia alcançou o seu grau máximo e que o problema está capilarizado nacionalmente, deixando evidenciada a falência do Estado em prover as condições materiais de existência para uma vida digna e plena.
Quando a população dessas comunidades aprova uma ação de extermínio que coloca suas vidas e a de seus filhos em risco, a partir de violência extrema, é porque a violência se naturalizou e a vida perdeu valor. São 121 mortos, entre os quais estão policiais, bandidos e inocentes. Os números afastam a dimensão pessoal e tornam os corpos uma massa uniforme, sem identidade e sem subjetividades. Se são pretos, pardos e pobres, são bandidos, certamente. Essa é a verdade não dita, mas que se desvela nos discursos dos políticos de ocasião.
A reunião dos governadores de oposição: Caiado, Zema, Jorginho Mello, Eduardo Riedel, Celina Leão, vice-governadora do DF, e Tarcísio de Freitas, realizada com Claudio Castro logo após a tragédia, é demonstrativa dos objetivos políticos da extrema-direita que já iniciou seus testes eleitorais e saem dessa com uma certeza, a tática da violência, da brutalidade, do sangue e da morte são altamente palatáveis a uma parcela da sociedade brasileira e pode lhes render votos, caso sigam pelo mesmo caminho de Claudio Castro.
Em vez de lutar por uma invasão de políticas públicas garantidoras de Direitos nas favelas, nas quais muitos já não acreditam ou depositam fé, as comunidades do Alemão e da Penha, por exemplo, desejam apenas sobreviver, aceitando para isso, inclusive, um grau de risco de serem mortos, assim como seus familiares.
O Brasil precisa tirar o foco dos operadores do crime, trabalhadores braçais, que manipulam as metralhadoras e que serão facilmente repostos em razão da grande massa de mantidos na condição de miseráveis, sem acesso a direitos fundamentais e dirigir sua atenção, força, energia e inteligência, para os que comandam o crime a partir de seus escritórios luxuosos instalados nos endereços mais sofisticados das grandes metrópoles ou de suas residências de alto luxo, localizadas fora do território brasileiro, onde seus filhos estudam e desfrutam das benesses obtidas pelo crime praticado por seus pais.
Os verdadeiros criminosos são ovacionados por seu empreendedorismo, sucesso nos negócios e capacidade de gestão de seus impérios econômicos que nada parecem ter a ver com o crime que mancha as cidades de sangue e violência.
Qual seria a reação da sociedade se o vermelho que mancha as ruas não fosse originado de corpos negros e favelados, mas de corpos brancos que habitam os endereços sofisticados de onde emanam as ordens que fomentam e alimentam o crime no país?
E se a dor da perda dos filhos não fosse de mães negras, faveladas, empregadas domésticas e faxineiras, invisibilizadas e excluídas, como vimos nas imagens da praça nos quais os corpos assassinados foram enfileirados, mas de mães ricas, brancas e sofisticadas, com seus vestidos de grife, procurando por seus filhos na Faria Lima ou em outros endereços frequentados pela elite? Qual seria a reação da sociedade? E dos políticos do “Consórcio da Paz”, coordenado pelos governadores?
Há outros caminhos possíveis que não a carnificina. A inteligência não depende de tiros ou de sangue. Há outros formatos de estancar os caminhos por onde o dinheiro transita, produzindo morte, dor e indignidade.
A violência não pode ser a tática utilizada para a busca da Democracia e da Paz.