Extremamente revoltado e dizendo alguns palavrões, um amigo de 62 anos (aqui a idade é relevante), ao acompanhar as atividades escolares da filha (cursando o ensino fundamental), relatou-me a sua experiência com as seguintes palavras: Danilo, é inacreditável, a minha filha está estudando as mesmas coisas que eu estudei, e o que é pior, da mesma forma que eu estudei.
A minha surpresa maior foi o fato de não ter conseguido “me surpreender”. Sou professor há quase 30 anos, do ensino fundamental à pós-graduação, e sei exatamente do que ele está falando. As escolas brasileiras, com exceções raríssimas, são anacrônicas e desconectadas da realidade; Tomam um tempo precioso dos jovens sem lhes devolver em troca o “pagamento” pelas incontáveis horas de “blá blá blá” e de exercícios tão inúteis quanto intermináveis.
Curiosamente, em sua maioria, são formadas por diretoria e corpo docente extremamente compromissados com o trabalho e genuinamente dedicados ao mister de educar. São pessoas que, tal como seus alunos, trabalham arduamente e produzem alguns dos piores resultados do planeta (vide testes internacionais).
E como somos latinos e, especialmente brasileiros, altamente sensíveis às críticas, já consigo ouvir as reclamações ácidas vindas de donos de escolas, diretores e professores. Não seria mais produtivo canalizarmos a nossa revolta para entendermos a razão do nosso atraso? Entender porque nos tornamos esses conteudistas antolhados que valorizam as fases da meiose e da mitose; que cobram questiúnculas sobre os godos e os visigodos; decoram a tabela periódica; exigem o conhecimento de logaritmo e função exponencial; tomam horas com enfadonhas regras de acentuação que qualquer corretor ortográfico resolve...
Mas... que são incapazes de desenvolver conceitos universais de lógica elementar, macro e micro economia, estudo consistente de idiomas, prática efetiva de ciências (para além do nascimento de feijão no algodão com água); Gerenciamento de processos, organização e método; Envolvimento real com tecnologia e não essas aulinhas de “informática” que qualquer criança aprende sozinha.
Ah, e sempre haverá aquela desculpa que aterroriza os pais, segundo a qual “fazemos assim porque é isto o que vão cobrar no Enem e nos vestibulares”. É nada! Fazemos assim porque não temos competência para fazer diferente e melhor. Por mais doloroso que seja, precisamos entender que o modelo faliu. A pandemia apenas acelerou a percepção de algo que todas as evidências já indicavam.
Então... esta semana, ouço o Secretário Geral da ONU, António Guterres, dizer que a suspensão das aulas poderá configurar uma “catástrofe geracional” capaz de minar décadas de progresso e aumentar as desigualdades sociais. Só se for na Dinamarca ou na Suécia! Porque a suspensão das aulas por aqui está causando enorme prejuízo aos pais que não têm com quem deixar os seus filhos.
Pois, para aqueles privilegiados que estão podendo conviver, têm sido um momento muito especial e de aprendizado mútuo. Várias escolas brasileiras, a despeitos dos dedicados e incansáveis professores, já produzem há muito tempo “uma catástrofe geracional” e já minaram décadas de progresso sem precisar de pandemia.
Volto para refletir sobre a revolta do meu querido amigo que há 50 anos estudava tal e como a sua filha no “moderníssimo” 2020... Fiquei pensando qual a parte do mundo de hoje mais se parece com o mundo de meio século atrás. A resposta se impôs: a escola!
Inevitável não lembrar do prestigiado periódico acadêmico Social Science and Medicine, que relatou diminuição da mortalidade durante greves de médicos. Mas vejam bem: como também sou latino, sensível à crítica, já faço a ressalva de que nem você, nem o seu professor, nem a sua escola, nem o seu hospital se enquadram no que estou dizendo. Vocês são honrosas exceções. Seria mesmo um absurdo alguém sugerir que aprendemos mais fora da escola! Que absurdo!