O Brasil é um país que não costuma se “reunir” nem em torno do óbvio. Já vivemos um longo e tenebroso período inflacionário que faria qualquer outro país mobilizar, em contrário, todas as suas forças. Por aqui, além da inflação, duraram anos sem solução encaminhada: escravidão, ausência de saneamento básico/água encanada, seca no Nordeste, violência, mortalidade infantil, evasão escolar, enchentes, analfabetismo e outros temas agudos, todavia, segmentados.
Todos os problemas listados acima tinham, em comum, o fato de poderem ser atribuídos, diretamente, a uma determinada parcela da sociedade e, assim, aqueles “não atingidos” comportam-se como se pronunciassem, em silêncio, um sonoro “e eu com isso”!?
É comum ouvir que o problema é da indústria, não do comércio; é do atacado e não do varejo; é do setor se serviços e não atinge a venda de mercadorias; é das escolas públicas e não das particulares; é municipal, estatual ou federal - raramente é um problema geral. Daí fica claro o fracionamento da nossa incipiente “consciência nacional”.
Viemos até aqui em um perigoso jogo de “não me conte os seus problemas”. Eis que surge um inimigo acelular/invisível que pode produzir a rara proeza de reunir os brasileiros “em torno” de um tema que lhes seja comum. Até agora são vítimas potenciais indistintas todas as classes sociais, todas as raças, médicos/pacientes, todos os gêneros/idades (com letalidade maior nos idosos), além de militantes do PT, PSL, PSOL, MDB e etc...
Parece que, com exceção do presidente e de meia dúzia de incautos, acredita-se que, agora, o problema seja de “todo mundo”. Ah, e não esqueçamos da entidade “mercado” que foi fortemente atingida; Ela que, nos últimos anos, costumava ficar de fora dos problemas “dos outros”.
Então, mesmo sendo, ainda, imponderável todo o estrago que este vírus pode causar, não seria uma boa hora para instigarmos e exercitarmos o verdadeiro nacionalismo?! E nação pode ser conceituada como “comunidade estável, historicamente constituída por vontade própria de um agregado de indivíduos, geralmente do mesmo grupo étnico (não é o nosso caso – ainda bem), com base num território, numa língua, em determinados costumes e com aspirações materiais e espirituais comuns”.
Nossos problemas, em sua maioria, são nacionais, por isto, torço para que o isolamento físico sirva para provocar uma reflexão e também como antídoto ao isolamento emocional e afetivo que nos tem sido sugerido (ou quase imposto) nos últimos anos: “É esse o vírus que eu sugiro que você contraia. Na procura pela cura da loucura. Quem tiver cabeça dura vai morrer na praia...”, sugere Djavan na belíssima “A Carta”. Só a loucura ou a vida monástica (por razões peculiares) podem prescindir da coletividade para resolver as tribulações que se nos apresentam.