Essa estória de direta e esquerda no Brasil já atingiu o ápice da hipocrisia e da ignorância. Mas é muita ignorância! Os conceitos já foram reformulados nos países mais desenvolvidos. Mas, por aqui, a discussão continua mais rasteira do que nunca. Era bem mais fácil, para os incautos sobretudo, quando a direita era fascista e a esquerda... comunista.
Por bastante tempo foi “chique” ser e se dizer de esquerda e, a menor crítica à ideologia quase religiosa, já lhe valia um carimbo de reacionário e de “a favor da ditadura” (era um perigo). A esquerda apropriou-se da moral e da ética e, como erva daninha, destruiu tudo o mais (divergências) ao seu redor.
Eis que, subitamente, no intervalo de alguns poucos anos, os canhotos foram demonizados (com toda razão) e “surgiu”, vinda do além, uma plêiade de direitistas que fico a me perguntar: onde estavam?! Pois é, apareceram. E não são crianças de dois anos, são adultos que, ao que parece, tiveram o mesmo “estalo de Vieira”.
Agora, ungidos e iluminados, dominam as conversas de boteco, os grupos de WhatsApp e as reuniões de família. Dá gosto de ver: conhecem escolas de pensamento econômico e filosófico, são especialista em infraestrutura, direito, sistema carcerário, nióbio, mobilidade urbana e tudo o mais que for necessário para mostrar a hegemonia “do momento”!
Então... como é impossível morrer de tédio no Brasil, os iluminados convocam uma “manifestação” para o dia 15 de março, cuja bandeira declarada é “contra o Congresso e o STF”. Aí fiquei confuso! Só para lembrar: Hugo Chaves fez isto, Maduro também, Mussolini também e Erdogan idem. Será que os nossos “iluminados” são ambidestros?!
Vejamos: aceitemos, só para argumentar, que a direita/liberal conservadora seria aquela que defende a propriedade privada, a liberdade de imprensa, a lei e a ordem, a institucionalidade, os “valores” da família e o livre mercado. Aceitemos também que, com o sinal trocado, a esquerda progressista é totalitária, não respeita as instituições, não aceita imprensa livre, detesta o livre mercado e atenda contra os “valores” da família.
São premissas necessárias para adentrar nesse trem fantasma. Eu já declarei algumas vezes que sou um liberal, conservador e de direita (se é preciso dizer). Mas agora... estou até em dúvida. A direita “de verdade” (quando democrática - porque existem ditaduras de direita) luta sempre no campo da institucionalidade e jamais à sua margem, aceita o embate institucional, argumenta com qualidade, e, vence ou é vencida. Sempre dentro das quatro linhas.
Então, caso você vá às ruas no dia 15 contra o Congresso, contra o STF ou contra o Clube de Regatas do Flamengo (pouco importa) estará exercendo um direito legítimo de manifestação. Só não me diga que é de direita, porque aí o problema é patológico (dupla personalidade). Será um ato típico das esquerdas totalitárias, chavistas e jacobinas (a terminologia ultrapassada é proposital – para ficar ao nível da discussão).
Faço um novo apelo: vamos parar com isso gente; vamos trabalhar, reconstruir o país e resgatar nossa esperança. Porque nas palavras de Miguel Torga, “grande é o futuro por nascer. Nenhum fruto maduro prometeu o que a semente pode prometer”. Sejamos as sementes, pois os frutos maduros já estão com seus destinos selados.