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Economia

Porsches, JACs e o aumento da desigualdade social brasileira

Mesmo remédio que impediu que milhões de brasileiros morressem de fome permitiu que uma pequena parcela da classe média alta obtivesse lucros exorbitantes, com gordas sobras para comprar carros de luxo

Publicado em 27 de Julho de 2021 às 02:00

Públicado em 

27 jul 2021 às 02:00
Cássio Moro

Colunista

Cássio Moro

Dinheiro, cédulas, saque, moeda, real
As necessárias políticas monetárias expansionistas para reduzir o impacto econômico da devastação causada pelo coronavírus também propiciaram que a parcela mais alta do mercado produtivo auferisse lucros superiores aos habituais Crédito: Pixabay
Em 2021, a Porsche, marca alemã de carros de alto padrão, vendeu mais unidades no Brasil que a JAC, marca chinesa de veículos populares ("Autoo", 17/07/2021). Foram 1.753 unidades alemãs contra 1.535 chinesas entre janeiro e junho/2021. O detalhe é que o custo médio da unidade de Stuttgart é de, aproximadamente, R$ 500mil, e o modelo mais em conta não sai por menos que R$ 379 mil ("Quatro Rodas", julho/2021).
Sinal de que a economia brasileira já está se recuperando e a renda do brasileiro aumentou? Não é bem assim.
A notícia acima apenas demonstra o quão a desigualdade social brasileira, que sempre operou em níveis abismais, ampliou-se durante a pandemia. As necessárias políticas monetárias expansionistas tomadas como forma de reduzir o impacto econômico da devastação causada pelo coronavírus, notadamente o benefício emergencial e o auxílio emergencial, que injetaram dinheiro diretamente a quem mais precisava, em que pese terem trazido um alento aos trabalhadores mais vulneráveis e tolhidos de alguma renda, propiciaram que a parcela mais alta do mercado produtivo auferisse lucros superiores aos habituais. Mas como assim?
A equação é relativamente simples. Considerando que todos fazem parte de uma mesma cadeia produtiva, de um mesmo mercado brasileiro, ao se conceder auxílio à parcela mais vulnerável, que o utiliza tão somente para o consumo de bens essenciais (especialmente alimentação e moradia), sem possibilidade de poupança, quem realmente lucra é o topo da pirâmide.
Em outras palavras, quando o pobre compra seu alimento no armazém do bairro, sustenta esse pequeno empresário que, por sua vez, compra de grandes atacados, dando lucro a um grande empresário, que compra de grandes industriais, até a cadeia chegar ao topo, a empresários do calibre de Jeff Bezos. Ou seja, do consumo das famílias pobres, o pináculo social consegue até financiar uma rápida ida ao espaço sideral (A Gazeta, 21/07/2021).
Segundo o Global Wealth Report 2021, do Credit Suisse (junho/2021), além dos programas de transferência, a pandemia também forçou as classes mais baixas a usarem eventuais reservas para seu próprio sustento, empurrando-as mais para baixo da pirâmide social, assim como as classes mais elevadas também se beneficiaram das taxas de juros mais baixas para aumento de sua riqueza. Pelo relatório, o aumento da desigualdade também repercutiu negativamente para minorias, mulheres e jovens.
O dado econômico que mede o nível de desigualdade social é o “coeficiente de Gini” que, numa escala de 0 a 100, 0 significa igualdade absoluta e 100 desigualdade extrema. Segundo a Síntese de Indicadores Sociais 2020 do IBGE (2020), em 2019 o Brasil ocupava a vergonhosa 156ª posição no ranking mundial, imediatamente atrás de Botsuana e entre as dez nações mais desiguais do mundo.
Com a crise sanitária de 2020, de início o impacto foi geral, porém a partir de 2021, quando países cuja vacinação em massa já se concretiza e a economia se recupera a passos largos, o Brasil, que demorou para iniciar sua imunização, ainda pena para externar algum indício consistente de crescimento, valendo-se ainda de já desgastados programas de transferência de renda, com orçamento no limite e que já era para ser substituídos por empregos.
Enfim, o mesmo remédio que impediu que milhões de brasileiros morressem de fome, mas sem sobras para comprar um carro popular, permitiu que uma pequena parcela da classe média alta obtivesse lucros exorbitantes, com gordas sobras para comprar seus belíssimos Porsches.
A solução era não conceder tais benefícios? Negativo. O problema não está na resposta bem-vinda pelo governo, mas na estrutura histórica deteriorada da sociedade brasileira. Num país com educação subvalorizada, empreendedorismo difícil e domínio de grandes corporações, fica difícil um crescimento linear entre todas as classes. Implementar a qualificação do trabalhador, facilitar a vida de pequenos empreendedores, bem como adotar políticas inclusivas, tendem a ser mecanismos que permitem a mobilidade social para cima, e, portanto, redução do abismo.

Cássio Moro

É juiz do Trabalho, doutorando em economia, mestre em Processo, especialista em Direito do Trabalho e economista. Professor de graduação e pós-graduação da FDV. Neste espaço, busca fazer uma análise moderna, crítica e atual do mercado e do Direito do Trabalho

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