Há algo de comovente no velho Fusca 1300. Ícone de uma era, símbolo da promessa de mobilidade popular, já foi sinônimo de modernidade e robustez. Um carro simples, direto, sem frescuras — que levava você de A até B sem grandes pretensões. Era o que dava para ter. Era o que o Brasil era. E, de certa forma, ainda é.
Pois bem: nosso Fusca está de volta à estrada. Só que agora, com uma tripulação... peculiar.
O comando do veículo não é exatamente coeso. O corpo do motorista é o mesmo, mas os órgãos agem de forma autônoma, como se tivessem perdido a coordenação central. O cérebro, otimista irremediável, vê no Fusca um Porsche disfarçado. E decide abastecê-lo com combustível premium — talvez na esperança de que a octanagem faça milagres mecânicos. Ignora solenemente o motor 1300 original, seus limites técnicos e sua reduzida capacidade de resposta. Para o cérebro, tudo é possível.
O pé direito, vaidoso e performático, adora uma plateia. Pisa fundo no acelerador, fazendo o motor urrar como se estivesse numa corrida em Nürburgring. Arrancar aplausos das massas exige espetáculo — não cautela. São os gastos públicos acelerando a demanda, turbinando consumo, programas e isenções.
Já o outro pé — mais cético, mais sóbrio, e com uma leve ansiedade institucional — percebe que o carrinho está tremendo. O giro está alto, o óleo esquenta, o motor parece prestes a fundir. Com serenidade, mas sem combinar com o pé direito, pisa no freio. Parece o Banco Central: sobe os juros, retira liquidez, tenta esfriar a empolgação. Tema legítimo — até certo ponto.
O resultado? O Fusca não anda.
Ou melhor: ronca, esquenta, treme... mas não avança. Gasta combustível como se fosse um V8, mas com performance de carroça. E pior: agora carrega mais passageiros do que comporta. O painel acusa pleno emprego — mas só porque todo mundo está espremido dentro do carro, inclusive no porta-malas. Há trabalho, mas não há tração. Há ocupação, mas não há produtividade. É um pleno emprego tão real quanto o velocímetro marcando 80 enquanto o carro desce solto, no ponto morto.
Não anda mesmo acelerando. Não estamos diante de uma inflação de demanda. O que temos são choques negativos de oferta: a alta dos alimentos que sofrem com o aquecimento global, combustíveis encarecidos e câmbio desvalorizado. Mesmo assim, segue-se com a política de juros altos.
É compreensível: trata-se de reduzir a inflação inercial — aquela que se retroalimenta das próprias expectativas. Além disso, há outro motivo relevante, e global: em um mundo com juros elevados — como o atual, nos Estados Unidos — manter os juros altos no Brasil é também uma forma de evitar fuga de capitais.
Ainda assim, é preciso parcimônia. Juros não produzem comida, nem petróleo, nem dólar barato.
Do outro lado da cabine, os gastos do governo. Aqui, é bom distinguir: o gasto em si não é o vilão. Muitos setores da economia brasileira sobrevivem graças à demanda pública. O problema é o gasto errado, o desperdício, a maquiagem. É melhor investir em hospitais eficientes do que financiar comitivas presidenciais para eventos onde nem sequer fomos convidados. É preferível gastar em educação primária de qualidade a construir estádios vazios ou benfeitorias voluptuárias em instalações do Executivo. É melhor colocar uma boa suspensão do que bancos de couro no Fusquinha.
E tudo isso tem sido feito a crédito — com o bom e velho cartão de juros altos. O combustível premium, afinal, está mais caro. O tanque esvazia. Se o motor não fundir antes, talvez não haja como reabastecer. Afinal, o endividamento das famílias cresce — não porque o Fusca vai longe, mas porque insistimos em tratá-lo como um carro de corrida.
A analogia termina aqui. O que não termina é o dilema real: uma economia que exige coordenação entre cérebro e membros — entre Banco Central, Executivo e Congresso. São instituições independentes, como devem ser. Mas independência não é sinônimo de desarmonia.
O “cada um por si”, que infelizmente já se espalha por diversos setores da sociedade, não pode alcançar também seu núcleo de representação institucional. Quando os poderes do Estado agem sem sintonia, o resultado não é equilíbrio de freios e contrapesos — é imobilismo, desperdício e e falência social. Sem sincronia, o Fusca não anda. E quem sofre, como sempre, é quem está dentro dele.