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Economia

Conheça a teoria que ajuda a entender por que a música e os empregos estão piores

O que Akerlof ensinou com carros usados, e ilustrou com limões e pêssegos, talvez seja, afinal, uma teoria geral sobre a decadência dos vínculos

Públicado em 

05 ago 2025 às 05:01
Cássio Moro

Colunista

Cássio Moro

Em 1970, o economista George Akerlof publicou no "Quarterly Journal of Economics" um artigo que viria a se tornar uma das mais influentes obras da teoria da informação: "The Market for 'Lemons': Quality Uncertainty and the Market Mechanism". Com uma linguagem simples, quase coloquial, Akerlof explicava por que mercados inteiros podem colapsar quando os compradores não conseguem distinguir um bom produto de um ruim. Seu exemplo era o mercado de carros usados: há os carros bons — os “pêssegos” — e os carros ruins — os “limões”.
Como o comprador não tem como saber antecipadamente a qualidade do carro que está comprando, ele só está disposto a pagar um preço médio. O problema é que esse valor médio não é suficiente para convencer o vendedor de um bom veículo a vendê-lo. Assim, os carros bem conservados e em excelente estado saem do mercado. O preço médio cai ainda mais. A qualidade média dos remanescentes também, até o dia em que o mercado se esvazia de valor: sobram apenas os limões, as tranqueiras.
A inspiração de Akerlof veio da antiga Lei de Gresham, atribuída ao financista inglês Thomas Gresham, mas antecipada séculos antes por Nicolau Copérnico. A lei diz que, quando moedas boas e ruins circulam juntas e têm o mesmo valor nominal, a moeda ruim expulsa a boa — afinal, ninguém quer se desfazer da moeda de mais valor intrínseco. Moeda ruim circula; moeda boa é escondida. Para Akerlof, isso ocorre em qualquer mercado em que o comprador não consegue discernir qualidade. O ruim se espalha, o bom se retrai. O resultado é o empobrecimento geral.
E podemos aplicar isso em qualquer situação, até mesmo no mundo da arte e, é claro, no mercado de trabalho. Acompanhem-me:
No mercado musical, por exemplo, o que se vê é um processo similar. Nas últimas décadas, sobretudo com a ascensão das plataformas digitais e das redes sociais, a música mais facilmente consumível, de estrutura repetitiva e apelo imediato, tomou o mainstream.
Aquela música mais elaborada, com letras densas, solos refinados, harmonias sofisticadas, saiu de cena — não porque deixou de existir, mas porque foi expulsa do centro. O consumidor médio, sem tempo, sem formação crítica e bombardeado por algoritmos, passou a consumir o que é fácil.
As gravadoras e plataformas, por sua vez, priorizaram o que vende mais rápido. Resultado? A música “ruim” — ops, de menor exigência estética — passou a circular com mais força. A música “boa” virou nicho. É a Lei de Gresham sonora: a arte descartável empurrando a arte duradoura para os bastidores.
E se essa mesma lógica também estiver corroendo o mercado de trabalho? No Brasil industrial de décadas passadas, não era incomum que alguém começasse sua carreira aos 18 ou 20 anos numa empresa e se aposentasse lá aos 60, ascendendo profissionalmente.
O emprego formal, com carteira assinada, benefícios, estabilidade e progressão, permitia planejamento: casa própria, filhos na escola, dignidade na velhice. O vínculo era valorizado. Mas, com a globalização, a lógica do capital financeiro e a plataformização, o que se valoriza agora é a tarefa, a meta do mês, o resultado da semana. O trabalhador de carreira passou a ser visto como caro demais (e a CLT não acompanhou a mudança).
Ouvir música, fone de ouvido
Fone de ouvido:  gravadoras e plataformas priorizaram o que vende mais rápido Crédito: Pixabay
A juventude, seduzida pela ideia de liberdade e pela promessa de enriquecer aos 30, preferiu a ilusão do empreendedorismo de si mesmo. Perdeu-se a confiança mútua. O empregador não investe porque acha que o trabalhador vai sair. O trabalhador não investe porque acha que vai ser trocado.
Resultado: vínculos frágeis, rotatividade, pouca produtividade e instabilidade crônica. O bom trabalhador, o pêssego, sai de cena. Sobram tarefas mal pagas, algoritmos avaliando desempenho e a falsa liberdade do trabalho sob demanda.
O que Akerlof ensinou com carros usados, e ilustrou com limões e pêssegos, talvez seja, afinal, uma teoria geral sobre a decadência dos vínculos. Quando ninguém mais consegue reconhecer o valor do que é bom, ou quando o sistema não recompensa quem se esforça por manter qualidade, o que sobra são os restos — que se multiplicam porque são os únicos que ainda compensam circular. A moeda ruim, a música fácil, o trabalho precário. Tudo limão, tudo barato, tudo abundante.

Cássio Moro

É juiz do Trabalho, mestre em Processo, especialista em Direito do Trabalho e estudante de Economia. Professor de graduação e pós-graduação da FDV. Neste espaço, busca fazer uma análise moderna, crítica e atual do mercado e do Direito do Trabalho

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