Explicar e apontar predições sobre o mercado de trabalho ou qualquer outro fenômeno que exija um pouco mais de conhecimento que o senso comum é uma tarefa ingrata. Acresça-se a isso situações nunca previstas, extremismos contraditórios ocorrendo conjuntamente e uma nuvem de fake news e ideologias baratas espalhadas pela rede, e as chances de o especialista cair em descrédito ao se utilizar da ciência são uma aposta confiável.
Na imprevisibilidade podemos ser óbvios ao mencionar a
pandemia do coronavírus. Ninguém poderia prever a crise mundial antes do primeiro caso identificado de Covid-19. Ainda se tem dúvidas se o fato, por si só e que ainda não superamos, esgarçou a economia global ou apenas acelerou os efeitos declinantes do sistema geopolítico construído nas últimas décadas.
Em meados de janeiro/2020, antes de tudo, o Fórum Econômico Mundial já assinava a carta de Davos pugnando por um novo capitalismo, como condição de sustentabilidade do planeta (weforum.org). Em junho, Klaus Schwab e o Príncipe de Gales já falavam em Great Reset da
economia, pedindo que a pandemia fosse vista como uma chance de reinício (BBC, junho/2020).
As contradições encontradas no mundo real parecem infinitas (o que é bom para um articulista, pois não faltam temas). De início, podemos citar o que os americanos chamam de Great Resignation: num momento de superação da crise, com políticas agressivas que permitem uma rápida recuperação econômica dos
EUA, empresas têm dificuldades em contratar mão de obra.
Não bastasse, milhões estão se demitindo mensalmente. Somente em agosto foram 4,3 milhões de trabalhadores que deixaram seus empregos ("Gazeta do Povo", 15/10/2021), o que representa 3% de todos os trabalhadores do Tio Sam (
explicamos o fato aqui).
No tema “contradição” nem precisava ir tão longe, o
Brasil é mestre nisso. Vivemos hoje um cenário de estagflação, que não deixa de ser um ponto contraditório segundo a teoria econômica pura. Nossa economia dilacerada, com crescimento irrisório, 14 milhões de brasileiros desempregados, mas com uma acelerada inflação e preço nas alturas, fenômeno típico de economias aquecidas (explicamos
nesta coluna). Mais contraditório ainda? Mesmo com milhões de trabalhadores ociosos, há um déficit na oferta de mão de obra no país que ultrapassa um quarto de milhão (
também comentamos sobre isso aqui).
Mais contradições? Ok. Segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), embora o Brasil seja o terceiro maior produtor de alimentos do mundo, só saiu do mapa da fome em 2014. Mas, neste exato momento, a população passou a comprar subprodutos alimentares (como farelo de arroz ou ossos de boi), pelo elevado valor da comida nas prateleiras dos supermercados.
Última contradição, prometo: enquanto especialistas se dividem inutilmente sobre reconhecer ou não vínculo de emprego de trabalhadores intermediados por plataformas digitais, como a
Uber, os próprios motoristas estão se desligando da plataforma pela inviabilidade do negócio, ante o abusivo preço do combustível monopolizado por uma estatal. Num futuro incerto, quando o Estado resolver legislar sobre a situação, não teremos motoristas ou pela inviabilidade do negócio ou porque toda frota já estará operando por meio de carros autônomos. Ou ambos, por que não?
Análises científicas partem de linhas puramente racionais. São estudadas através de um cenário teórico simulado. Colocar essa diversidade da vida real num laboratório é tarefa ardil. Achar razão na contradição dentro de um modelo fechado de concorrência perfeita, mantendo-se constantes (e desprezando-se) todas as outras variáveis, a famosa condição “coeteris paribus”, pode resultar em conclusões tão míopes quanto quando influenciadas por alguma ideologia barata de rede social.
Como um “liberal de Facebook” aceitaria que o país que mais defende o livre mercado aplicou uma multa de US$ 14 milhões ao
Facebook por discriminar trabalhadores estadunidenses ao contratar mão de obra estrangeira? ("Washington Post", 19/10/2021). Mas, mais difícil que tudo isso é encontrar não apenas uma explicação, mas uma saída. Uma resposta para todas as vicissitudes do dia a dia.