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Em tempo de coronavírus

Não basta informar. As notícias precisam incidir na vida da audiência

A população está cansada do jornalismo birrento, do jornalismo que mostra os dentes ao poder público, mas que não busca novas propostas. O jornalismo não é uma via de mão única. Para fidelizar é preciso conhecer, ouvir, admitir críticas, interagir

Publicado em 20 de Abril de 2020 às 05:00

Públicado em 

20 abr 2020 às 05:00
Carlos Alberto Di Franco

Colunista

Carlos Alberto Di Franco

Acesso à informação: televisão, celular e computador Crédito: Divulgação
Em tempos de coronavírus, o interesse da população por notícias vem crescendo de maneira significativa em todo o mundo. Um conforto para os meios de comunicação que, regra geral, há anos observam atônitos a retração de sua audiência.
O estudo Media Consumption and Sport, da Global Web Index, foi um dos que registrou o aumento após ouvir 4 mil pessoas dos Estados Unidos e do Reino Unido para verificar como o isolamento social vinha alterando seus hábitos de consumo de mídia. O resultado é pra lá de animador: 87% dos norte-americanos e 80% dos britânicos que participaram do levantamento afirmaram que, desde o estouro da pandemia, vêm recorrendo mais à televisão aberta, aos sites de notícia e às emissoras de rádio para se manter informado sobre a doença.
Mas não basta noticiar. É preciso que as notícias incidam diretamente na vida da audiência. Isso é o que afirma o estudo Consumo de Informações sobre o coronavírus no Brasil, publicado há alguns dias pelo Orbis Media Review, um hub de produção de conhecimento e análise de tendências no jornalismo que tive a alegria de ver nascer recentemente como um desdobramento do Master em Jornalismo.
“O fato de quase a metade da amostra dizer que gostaria de saber mais sobre a situação do coronavírus em seu bairro e na sua cidade evidencia um problema maior que o jornalismo vem registrando mais amargamente nos últimos meses: a crise do jornalismo local”, pontua o informe que entrevistou 240 pessoas.
A população está cansada do jornalismo birrento, do jornalismo que mostra os dentes ao poder público, mas que não busca novas propostas. Apenas com a aposta por uma abordagem local, que escancare, sim, as mazelas sociais, mas que também mostre possíveis soluções é que os veículos serão capazes de dar à cobertura um diferencial perceptível.
Os dois estudos já mencionados não são tão otimistas em relação a este ponto. O relatório do Global Web Index alerta sobre as fragilidades dos veículos frente às plataforma de entretenimento, por exemplo. Enquanto 30% dos entrevistados da Geração X (16 a 23 anos) disseram cogitar assinar os serviços da Netflix, apenas 5% mostram-se dispostos a pagar pelo New York Times. “As pessoas consideram as notícias como um recurso gratuito que será consumido durante o surto”, afirma.
No Brasil, o tamanho do abismo entre o consumo de informação e a propensão a pagar para acessar este conteúdo é similar: embora uma porcentagem bastante significativa diga estar dedicando mais tempo às notícias, apenas uma mínima parte projeta colocar a mão no bolso quando a poeira da pandemia baixar. No levantamento realizado pelo Orbis Media Review, apenas 5% dos entrevistados que ainda não pagam por produtos de mídia pretendem se tornar assinantes.
O jornalismo não é uma via de mão única. Para fidelizar é preciso conhecer, ouvir, admitir críticas, interagir.

Carlos Alberto Di Franco

É jornalista e bacharel em Direito. Especialista em Jornalismo Brasileiro e Comparado. Doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra. Neste espaço, jornalismo e sociedade têm destaque

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