Depois de meses de escalada inflacionária, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou nesta semana que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), considerado a inflação oficial do país, teve queda de 0,68% em julho, após ter registrado alta 0,67% no mês anterior. Tal dado, entretanto, não significa que o Brasil está em plena fase de deflação, muito menos que a redução do IPCA tenha sido sentida pela maioria das famílias brasileiras.
Diz-se que não se trata de deflação porque, a bem da verdade, a redução do IPCA foi artificial, maquiada por uma política populista de redução das alíquotas de ICMS cobradas sobre os combustíveis, por exemplo. Não há uma queda generalizada de preços, pelo contrário. A maioria dos itens pesquisados apresentou aumento de preços.
Entre os dez itens pesquisados pelo IBGE, seis ficaram mais caros em julho, principalmente na área de alimentação e bebidas, em que houve um aumento de 1,3%. Ademais, no ano, a inflação acumulada já atinge 4,77% e, no acumulado nos últimos 12 meses, a taxa permanece acima dos dois dígitos, ultrapassando o centro e o teto da meta do Banco Central, com fortes indicativos de que a inflação só comece a voltar a ficar sob controle em 2024.
Como a queda do IPCA em julho se deve principalmente à redução de impostos sobre os combustíveis, as famílias mais pobres não sentiram aumento de seu poder de compra, na verdade, muito pelo contrário. Como essa população, em geral, não usa carro próprio, a redução dos combustíveis não teve muitos impactos, notadamente porque, enquanto isso, o setor de alimentação, que consome a maior fatia da renda dessas famílias, continua em franca escalada inflacionária.
Os impactos da inflação sobre os alimentos e bebidas são muitos mais expressivos para os mais pobres do que para os mais ricos, que gastam uma parcela menor de seus rendimentos com alimentação.
Se em junho a inflação do grupo alimentos e bebidas foi de 0,8%, o aumento de 1,3% em julho se deve sobremaneira pela alta do leite e seus derivados, bem como de grãos e cereais em geral. O leite, inclusive, já acumula alta de quase 60% no ano.
Por isso, mesmo que em julho o IPCA tenha apresentado leve queda, isso não foi sentido pelas famílias brasileiras, já que a alimentação, item mais básico, insiste em sua marcha inflacionária, fazendo com que a insegurança alimentar continue sendo um fantasma que assola as famílias mais carentes.
Em suma, quem mais sentiu a queda do IPCA em julho foram os mais ricos, principalmente quem usa carro próprio. Para a maior parcela da população, nada mudou, até parece que piorou, já que as idas ao supermercado estão sendo cada vez mais custosas.