Não deveria ser normal, mas, incêndios a ônibus não são raridade no Espírito Santo, e não é de hoje. Segundo informações do Sindicato das Empresas de Transporte Metropolitano da Grande Vitória (GVBus), desde 2004, 84 ônibus do Sistema Transcol foram incendiados por criminosos e ficaram totalmente destruídos, gerando um prejuízo às empresas e aos usuários do transporte coletivo. Todavia, o que houve de diferente nos ataques desta semana?
Até o momento, a principal tese é de que os ataques ocorreram como uma represália à morte de um suspeito que seria segurança do traficante Fernando Moraes Ferreira Pimenta, conhecido como “Marujo”, responsável pelo comando do tráfico de drogas em várias regiões da Grande Vitória. Porém, o governador Renato Casagrande chegou a dizer que a “investigação poderá apontar outras razões”.
Se nem os próprios órgãos de investigação chegaram a uma conclusão, quem sou eu para cravar qualquer resposta, nem é esse o objetivo. Entretanto, não há como deixar de se fazer certos questionamentos acerca do ocorrido, notadamente, dadas as particularidades do dia de caos em Vitória.
De início, causa estranheza que a ação que culminou com a morte do suspeito tenha se iniciado, em plena madrugada, após o recebimento de uma “denúncia anônima informando” que Marujo estaria escondido na escadaria Alexandre Rodrigues. Sendo Marujo considerado um dos criminosos mais procurados pela polícia no Espírito Santo, o que se pressupõe é que uma ação para capturá-lo deveria ser extremamente calculada pelo setor de inteligência, em vez de se dar às pressas após o recebimento de uma informação apócrifa.
O fato é que, após iniciados os ataques, o episódio passou a ser altamente utilizado para fins eleitorais pela campanha do adversário do atual governador. Lembrei-me, a propósito, da greve da PM em 2017. Houve, inclusive, membros da extrema direita que foram às ruas para fazer vídeos, supostamente, no afã de denunciar o descontrole da criminalidade pelas forças públicas estaduais. Tudo isso às vésperas de um raro segundo turno para o Palácio Anchieta.
Só a mim causou estranheza tudo isso? O caos serviria para trazer mais votos para um ou outro candidato? Se efetivamente os ataques ocorreram como revide às ações policiais, não seria de se supor, então, que o governo estadual tem incomodado o tráfico de drogas?
Se sobram muitas dúvidas, ao menos uma resposta tivemos durante esse episódio: a atuação das guardas municipais e dos municípios precisa ser aprimorada! Com o devido respeito, as guardas civis municipais devem dar enfoque a questões mais urgentes, em vez de cingir sua atuação à aplicação de multas de trânsito e apreensão de cigarros contrabandeados, por exemplo. Os municípios, principalmente os da região metropolitana, precisam investir nas áreas de inteligência e direcionar-se contra os crimes violentos.
Como a grande maioria dos ataques ocorreu em Vitória, uma ilha de dimensões diminutas, parece que a segurança pública ainda não está totalmente pacificada na capital. Isso nos leva a concluir que não basta ter um delegado na cadeira de prefeito, haja vista que, de dentro do gabinete, não se conseguiu resolver o problema da violência num piscar de olhos.
O problema da criminalidade não irá se resolver apenas com base na bala e no encarceramento de pessoas. É bem verdade que aqueles que cometem crimes devem serem punidos após o regular trâmite de um processo justo. Contudo, enquanto não se investir em ações coordenadas e preventivas, a vaga no crime do criminoso preso logo será preenchida por outra pessoa. Prende-se mas o crime não acaba.
Problemas complexos dificilmente serão resolvidos com soluções momentâneas ou miraculosas. Para combater o crime municípios, Estado e União devem ocupar os espaços que atualmente estão preenchidos pelos criminosos. Por isso, além de policiais, é preciso levar aos locais dominados pela criminalidade oportunidades e condições de vida digna às pessoas.