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Sociedade

Aporofobia é ainda mais grave nos meses frios

Muito conhecido nas redes sociais, o padre Júlio Lancellotti tem destacado como algumas pessoas, órgãos públicos e até mesmo igrejas têm adotado mecanismos e táticas para impedir a aproximação e a permanência de moradores de rua em locais públicos

Publicado em 20 de Maio de 2022 às 02:00

Públicado em 

20 mai 2022 às 02:00
Caio Neri

Colunista

Caio Neri

Os moradores em situação de rua se encontram no cenário da invisibilidade social
Os moradores em situação de rua se encontram no cenário da invisibilidade social Crédito: Freepik/ @jcomp
A aporofobia é ainda mais grave nos meses mais frios, mesmo nos países sem invernos tão rigorosos, como o Brasil. Todavia, como todas novas nomenclaturas despertam dúvidas, é preciso esclarecer do que se trata a aporofobia, que sempre existiu, conquanto sem nome próprio.
Na medicina, fobia é um termo técnico que designa um dos muitos transtornos de ansiedade patológica, referindo-se, geralmente, a uma fobia complexa ou específica, como o medo de animais (zoofobia), de altura (acrofobia), de tempestades (astrofobia ou brontofobia), de espaços fechados (claustrofobia), entre outros. Porém, a aporofobia, assim como a homofobia e a xenofobia, por exemplo, em nada têm a ver com patologias, senão, com o ódio.
De origem grega, fobos se traduz como medo e á-poros se refere aos pobres. Daí, a aporofobia nada mais é do que a aversão, a rejeição e o ódio às pessoas pobres pelo simples fato de serem pobres. Fica claro, assim, que a despeito de o termo aporofobia ter ganhado notoriedade há cerca de duas décadas, no mundo fático, ela sempre existiu. Tanto é que aporofobia foi eleita a palavra do ano em 2017 pela Fundação Espanhol Urgente (Fundéu).
No Brasil, um país rico, mas historicamente marcado por gravíssimas desigualdades sociais, a expressão aporofobia e a conscientização a esse respeito em muito se deve ao incansável trabalho do padre Júlio Lancellotti, da Pastoral do Povo da Rua, de São Paulo.
Muito conhecido nas redes sociais, o padre Júlio Lancellotti tem destacado como algumas pessoas, órgãos públicos e até mesmo igrejas têm adotado mecanismos e táticas para impedir a aproximação e a permanência de moradores de rua em locais públicos, uma verdadeira tentativa de uma espécie de “faxina social”. O padre chegou a compartilhar em suas redes imagem de uma padaria localizada em Bento Ferreira, Vitória, que orientava seus clientes a não contribuírem com a população de rua por “motivos de força maior”.
Em diversas cidades, além das mensagens de desincentivo à doação de alimentos e donativos à população em situação de rua, tem sido criada uma “arquitetura antipobre”, inserindo-se na arquitetura de diversas construções e equipamentos públicos obstáculos como pedras, grades, cacos de vidro e espetos de ferro para afastar pessoas em situação de rua.
Num cenário de robustecimento do abismo social e num país marcado pela escalada do ódio e por crescente déficit de empatia, a aporofobia torna-se ainda mais preocupante nos meses mais frios, já havendo relatos de mortes de pessoas em situação de rua com suspeita de hipotermia em cidades do Sul e Sudeste do Brasil.
Numa tentativa de camuflar a pobreza e a desigualdade escancarada nas ruas, algumas prefeituras insistem em recolher e jogar no lixo cobertores e outros pertences de população em situação de rua, como já aconteceu em Vitória no último inverno. Não adianta tratar como questão de polícia o dilema dos moradores em situação de rua, eles não são sujeira para serem jogados debaixo do tapete.
Nem mesmo a associação indevida que se faz dos moradores de rua ao fenômeno da drogadição é justificativa para tratá-los como subespécie ou menos dignos de direitos. Primeiro, porque aqueles drogatictos são, em verdade, pessoas doentes. Segundo, porque qualquer ser humano faz jus a um mínimo de dignidade inata à sua condição humana.

Caio Neri

E graduado em Direito pela Ufes e assessor juridico do Ministerio Publico Federal (MPF). Questoes de cidadania e sociedade tem destaque neste espaco.

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