A aporofobia é ainda mais grave nos meses mais frios, mesmo nos países sem invernos tão rigorosos, como o Brasil. Todavia, como todas novas nomenclaturas despertam dúvidas, é preciso esclarecer do que se trata a aporofobia, que sempre existiu, conquanto sem nome próprio.
Na medicina, fobia é um termo técnico que designa um dos muitos transtornos de ansiedade patológica, referindo-se, geralmente, a uma fobia complexa ou específica, como o medo de animais (zoofobia), de altura (acrofobia), de tempestades (astrofobia ou brontofobia), de espaços fechados (claustrofobia), entre outros. Porém, a aporofobia, assim como a homofobia e a xenofobia, por exemplo, em nada têm a ver com patologias, senão, com o ódio.
De origem grega, fobos se traduz como medo e á-poros se refere aos pobres. Daí, a aporofobia nada mais é do que a aversão, a rejeição e o ódio às pessoas pobres pelo simples fato de serem pobres. Fica claro, assim, que a despeito de o termo aporofobia ter ganhado notoriedade há cerca de duas décadas, no mundo fático, ela sempre existiu. Tanto é que aporofobia foi eleita a palavra do ano em 2017 pela Fundação Espanhol Urgente (Fundéu).
No Brasil, um país rico, mas historicamente marcado por gravíssimas desigualdades sociais, a expressão aporofobia e a conscientização a esse respeito em muito se deve ao incansável trabalho do padre Júlio Lancellotti, da Pastoral do Povo da Rua, de São Paulo.
Muito conhecido nas redes sociais, o padre Júlio Lancellotti tem destacado como algumas pessoas, órgãos públicos e até mesmo igrejas têm adotado mecanismos e táticas para impedir a aproximação e a permanência de moradores de rua em locais públicos, uma verdadeira tentativa de uma espécie de “faxina social”. O padre chegou a compartilhar em suas redes imagem de uma padaria localizada em Bento Ferreira, Vitória, que orientava seus clientes a não contribuírem com a população de rua por “motivos de força maior”.
Em diversas cidades, além das mensagens de desincentivo à doação de alimentos e donativos à população em situação de rua, tem sido criada uma “arquitetura antipobre”, inserindo-se na arquitetura de diversas construções e equipamentos públicos obstáculos como pedras, grades, cacos de vidro e espetos de ferro para afastar pessoas em situação de rua.
Num cenário de robustecimento do abismo social e num país marcado pela escalada do ódio e por crescente déficit de empatia, a aporofobia torna-se ainda mais preocupante nos meses mais frios, já havendo relatos de mortes de pessoas em situação de rua com suspeita de hipotermia em cidades do Sul e Sudeste do Brasil.
Numa tentativa de camuflar a pobreza e a desigualdade escancarada nas ruas, algumas prefeituras insistem em recolher e jogar no lixo cobertores e outros pertences de população em situação de rua, como já aconteceu em Vitória no último inverno. Não adianta tratar como questão de polícia o dilema dos moradores em situação de rua, eles não são sujeira para serem jogados debaixo do tapete.
Nem mesmo a associação indevida que se faz dos moradores de rua ao fenômeno da drogadição é justificativa para tratá-los como subespécie ou menos dignos de direitos. Primeiro, porque aqueles drogatictos são, em verdade, pessoas doentes. Segundo, porque qualquer ser humano faz jus a um mínimo de dignidade inata à sua condição humana.