Nesta época do ano, quando se juntam duas festas importantes: o Natal e o Ano-Novo, costumamos nos encontrar em família e com amigos mais próximos para celebrar essas datas. As festividades de 2021, por certo, ficarão marcadas na memória como aquelas pós-Covid (ou, ao menos, com pessoas vacinadas), quando famílias inteiras puderam reunir-se novamente.
Muito já se falou sobre os efeitos emocionais da pandemia de Covid-19, sobre os quais nem mesmo as pesquisas mais recentes puderam dar conta, já que alguns deles ainda não se realizaram. As verdadeiras consequências subliminares dos anos 2020 e 2021 na vida da maioria das pessoas na Terra serão sabidas somente anos à frente.
Mesmo sem saber de todas as consequências e efeitos colaterais da pandemia, a maioria de nós pode já agora ter a percepção das emoções que eclodem nos reencontros. Inegável é que aquelas cenas maravilhosas de abraços no saguão de aeroportos voltaram a se repetir e com elas se acenderam em nós uma renovada esperança.
Essa renovada esperança vem justamente da capacidade de amar do ser humano. Mas o que é o amor? A maioria das pessoas tende a concluir que o amor é aquele sentimento que nos faz agir com moralidade mais exigente em relação à determinada pessoa.
É assim, por exemplo, entre mãe e filhos: uma relação inegável de amor que importa necessariamente em cuidado. Esse cuidado, que se expressa em relações filiais, flutua entre amor e dever, sendo para muitos um dever de cuidado que decorre do amor e, para outros, um dever de cuidado pelo simples fato da relação inelutável de parentesco.
A pergunta que a filosofia moral desde Immanuel Kant faz, com respeito ao amor é, portanto, não aquela sobre o que é o amor, mas a que diz respeito às ações decorrentes do amor e seus limites de parcialidade. O amor incondicional decorrente de laços familiares imporia, assim, em razão do próprio sentido do amor, um dever de cuidado. Esse dever pode ser exercido espontaneamente ou como um fardo que pesa sobre os ombros daqueles filhos, que mesmo não amando, sabem não poder abandonar os pais, mais velhos, dependentes de cuidados.
Se assim for, como traçar, então, o limite de ação que seja imparcial na forma de agir humana. Explicando melhor, no tradicional exemplo trazido por Bernard Williams em seus debates sobre o tema, é moralmente justificável que uma pessoa salve primeiramente a sua esposa em um naufrágio, deixando afogar-se outra pessoa desconhecida?
Pensando em uma situação corriqueira, com menos dramaticidade, indagamos: os pais deverão sempre defender seus filhos em situações de conflito na escola? Será que esse amor incondicional decorrente de um laço familiar se impõe sobre o dever de imparcialidade moral?
Diante de reencontros de fim de ano, após um período obrigatório de afastamento e reflexão sobre a própria natureza da vida humana, como devemos demonstrar o nosso amor? Há aqueles de quem gostamos mais?
Há filósofos que defendem a posição de que não há problemas em avançar a linha tênue da imparcialidade para comprar um presente melhor para aqueles de quem gostamos mais, afinal o elo é de fato um que não pede uma justificativa moral para atos que demonstram o sentimento maior.
Quando as nossas decisões morais afetam, principalmente, um relacionamento intersubjetivo, onde não impera a necessidade de justificação moral, nossas escolhas corriqueiras podem até mesmo ser vistas como demonstrações públicas de amor, o que é lindo! Mas na esfera pública, defender uma conduta imoral em nome do amor, vai além do dever que pode decorrer do afeto.
Afinal, o que é certo e errado nas festas de fim de ano deve ser decidido por cada um de nós. Já na vida cotidiana, a linha tênue da imparcialidade diante de condutas imorais deve sobrepor-se a qualquer desejo de privilegiar aqueles que amamos, pois aqui a justificação moral se faz ou muito difícil ou até mesmo impossível.