O filme "Imperdoável" (The Unforgiveble), da diretora Nora Fingscheidt, que tem como atriz principal a norte-americana Sandra Bullock, foi lançado no dia 10/12 na Netflix e nos traz muito o que pensar. Nora Fingscheidt estreou no cinema com o filme "Transtorno Explosivo" (System Carscher) na 69ªedição do Berlinale em 2019, tendo ganho à época 33 prêmios pelo filme. Certamente que, para a sua nova produção, a expectativa é altíssima.
"Imperdoável" trata da história de Ruth Slater (Sandra Bullock), que passa 20 anos na prisão pelo homicídio de um xerife. A trama toda se desenvolve e o público só compreende mesmo o que aconteceu nos vinte anos anteriores bem no final do filme. Antes disso, porém, faz uma reflexão importantíssima para a nossa sociedade, a questão da dificuldade de integração das pessoas saídas do sistema prisional na vida cotidiana das nossas cidades.
Ao sair do estabelecimento penitenciário, Ruth recebe as regras principais de sua vida a partir de então, não pode ter contato com quem já foi condenado anteriormente e não pode se aproximar da irmã menor, que ela não vê desde que foi presa. Mas a vontade de rever a irmã e saber o que aconteceu com ela leva Ruth a procurar variadas formas de encontrá-la, em especial, ela busca contato com a família adotiva da irmã através de um advogado.
O filme retrata, a partir de então, o peso de uma condenação na vida das pessoas, mesmo após ela ter cumprido toda a sua pena no sistema carcerário. Em especial, a vida de mulheres egressas do sistema penal é muito penosa, pois toda tentativa de buscar emprego e sustento passa pela solidariedade de alguém que aceita empregá-las. Em um determinado momento do filme, Sandra Bullock pergunta à personagem de Viola Davis: o que mais posso fazer, eu já cumpri 20 anos de pena? O que mais se pode exigir de alguém que cometeu um crime?
Outro ponto explosivo do filme é o fato de Ruth Slater ter assassinado um policial, essa pecha Ruth vai carregar durante toda a sua vida, seja dentro do sistema carcerário, seja fora. Por esse motivo, também, ela passa a ter seus passos vigiados pelos dois filhos do xerife que tramam algum tipo de vingança contra a protagonista. Mas não se trata de uma vingança pessoal, somente, o plano é envolver outros policiais colegas do pai assassinado que também querem algo mais do que o cumprimento de 20 anos de pena na prisão.
Todas essas circunstâncias que, sim, repetem-se no nosso dia a dia e em muitas sociedade que têm um sistema carcerário pesado como o norte-americano e, podemos dizer, o brasileiro também. O estigma que acompanha a vida da pessoa egressa do sistema é como uma marca que não se apaga. A dificuldade de encontrar de novo um lugar no mundo não é amenizada por políticas públicas, tampouco pela iniciativa privada que gera empregos.
O egresso do sistema carcerário entra num círculo vicioso humilhante e muito pouco dignificante. Tudo se torna difícil, a sua palavra não é considerada, estar ao seu lado parece ser uma ameaça, de uma forma geral podemos dizer que há preconceito em relação a egressos do sistema penitenciário que dificultam a sua inclusão na vida em sociedade.
O que o filme mostra, além disso, é que a protagonista tendo decidido pelo silêncio desde o assassinato não conta a verdade sobre o que aconteceu, deixando para o último momento do filme. Quando, então, o espectador, mais confuso ainda, percebe que a injustiça com ela é muito maior do que inicialmente pensávamos.