Foram quatro mandatos consecutivos como Bundeskanzlerin alemã que a política Angela Merkel absorveu durante os anos de 2005 e 2021. Merkel nasceu na antiga Alemanha Oriental e foi lá que obteve seu título de doutorado em ciências naturais (Doktor der Naturwissenschaften) no ano de 1986.
Foi somente em 1990 que ela foi eleita pela primeira vez para o Parlamento Alemão, o Bundestag, começando assim a sua carreira política. Durante o governo do Chanceler Helmut Kohl, Angela Merkel exerceu vários cargos no primeiro escalão, tendo sido ministra da Família e ministra do Meio Ambiente, em diferentes períodos.
Mas foi depois de um grande desgaste do governo de Gerhard Schroeder que Angela Merkel assumiu a posição de líder política, a qual ela passou a ocupar durante quase todo o início do século XXI.
Schroeder, do Partido Social Democrata, acabou enredando-se em uma reforma da legislação social e trabalhista chamada Agenda 2010 que lhe custou todo o apoio da base social-democrata constituída pelos sindicatos e também da ala mais à esquerda de seu próprio partido. Essa reforma do sistema social foi votada em março de 2003 e levada adiante mesmo com grande oposição de outros partidos e do seu próprio.
Com o fiasco de Schroeder, Merkel vence as eleições de 2005 e passa então a ser a primeira mulher a comandar o povo alemão, no cargo que exerce até os dias de hoje. Porém, os seus dias como Bundeskanzlerin estão chegando ao fim, tendo ela decidido não mais se recandidatar ao cargo. Na verdade, Merkel, conhecida como a “Mutti” (Mamãezinha) da Nação, começou a perder sua popularidade quando em 2015 disse a famosa frase: “Wir schaffen das” (A gente dá conta disso).
O “isso” da frase era receber e integrar no território alemão os milhares de sírios que fugiam do seu país de origem em busca de refúgio na Alemanha, por conta da guerra que assolava aquele país desde 2011. A guerra, que ainda não acabou, teve início com uma série de protestos inspirados no movimento chamado Primavera Árabe iniciado na Tunísia, em dezembro de 2010.
A política de recepção de refugiados expressada por essa frase de Merkel, acabou tornando-se o calcanhar de aquiles da chanceler. Mas, na verdade, esse talvez tenha sido o momento mais fanstástico de toda a carreira de Merkel. Como disse, em seguida, o seu vice-chanceler social-democrata, Sigmar Gabriel, a frase “wir schaffen das” representa: “Paz, humanidade, solidariedade, justiça: estes estão entre os valores europeus”.
Ora, esse foi o momento na história recente da Alemanha em que o país esteve mais perto dos grandes ideais postos como metas da União Europeia criada no pós-Segunda Guerra Mundial. A Alemanha, que havia expulso estrangeiros, exterminado em razão da raça e religião a população judia do seu e de outros territórios durante 1933-1945, dava agora indícios de grande alteridade para com a humanidade: abrigaria milhares de refugiados sírios em seu território, propiciando a eles moradia, renda mínima básica, saúde, educação e alimentação.
A grande humanidade demonstrada pela chanceler alemã, num gesto que lhe custou a carreira política, demonstra a grandiosidade dessa estadista, de quem todas nós mulheres certamente levaremos muitas ou algumas inspirações para as nossas vidas e carreiras. Angela Merkel deixará saudades, mas principalmente, um grande exemplo de líder humanista para o mundo.