Venho pensando em minhas experiências de escrever ficção. A primeira coisa que me ocorre é que não existem fronteiras entre esse meu ofício de ficcionista e o que o senso comum chama de “realidade”. Talvez, em algum momento, seja esse o pensamento que acomete qualquer pessoa que faz literatura. Ninguém ignora que a realidade não passa de pura representação.
Nesse sentido, a crítica argentina, Josefina Ludmer, propõe a palavra “realidadeficção” para nomear a criação literária. O termo provoca disse-me-disse entre os entendidos. Mas cai como uma luva para pensar o entrelugar em que se junta o real (que depende da percepção de cada pessoa) e o ficcional (que interpreta essa percepção).
E parece ser bem adequado ao estado das coisas. Em especial, quando se pensa nos relatos que atravessam as fronteiras entre o mundo natural e o mundo da literatura. Haja vista escritores atuais que se exercitam nos blogs, legítimos substitutos, na era da internet, dos antigos diários confessionais. A diferença é que os blogs se expandem para a leitura de muitos indivíduos, enquanto os diários se fechavam à chave em gavetas, para não serem lidos.
Não raro, os registros blogueiros se transformam em livros, como qualquer escritura de gêneros tradicionais. E os livros de registros blogueiros se transformam em sucesso midiático. É o tipo de produção literária que se faz quando a literatura sobe na corda bamba e oscila em direção à perda de sua autonomia (segundo dizem alguns) ou se expande para além de seu núcleo e continua indo em direção a si mesma (como afirmam outros).
Em tempo: falar em perda de autonomia da literatura não implica em demérito. Significa apenas que a literatura perdeu o poder de ser regida por leis específicas e garantidas por instituições próprias (ensino, academias, crítica etc.) para entrar numa era de pós-autonomia, distante dos preceitos do Modernismo do século XX e das regras mais longínquas de Kant. Como, em geral, estão todas as artes, hoje invadidas pelas ciências sociais, pela mídia, pelo mercado, pelas novas tecnologias etc.
Mas essa é uma querela que tende a nunca acabar. É motivo para muitas confabulações. Como saber se vocês estão interessados nestes assuntos que brotam da memória histórica desta escriba que vos escreve daqui, desta quinzenal página? Diante da impossibilidade de conhecer as respostas, insisto em repartir elucubrações com quem possa se interessar por elas. É o único objetivo que se me apresenta para o momento, queridas leitoras e queridos leitores. Como manda o figurino. Sem juízo de valor. E como convém.