É uma agradável surpresa ver o Prêmio Nobel de Literatura ser concedido a uma mulher de 82 anos, a escritora francesa Annie Ernaux, que declarou: “Escrever é um ato político”. Uma declaração acertada. Se bem que não há novidade nenhuma nela. Quem escreve de modo consciente, e não por diletantismo ou vaidade, sabe bem que produzir literariamente sempre foi uma tomada de posição política, ou seja, uma contribuição ao sensível, à busca de conhecimentos, ao entendimento das realidades.
Para quem tem mania de dar atenção ao setor literário, a escolha da comissão do Nobel fornece algumas pistas para pensar a situação da literatura atual. Que já não é a mesma de antes. Simplesmente porque a literatura é mutável. Varia ao longo do tempo, como tudo sobre o planeta Terra.
Vocês me desculpem, porém não resisto a uma explicaçãozinha. É só para incrementar. Na segunda metade do século XX, duas correntes afetaram a literatura, afastando-a do pensamento romântico do século XIX, que permitia considerar escritores como gênios ou artistas singulares, eleitos pelas musas. São elas: a Era das Teorias, ocorrida entre as décadas de sessenta e noventa; as inovações tecnológicas, que irrompem com força na cultura, modificando os costumes e a sociedade.
As teorias invadem o espaço dos estudos literários e descontroem os antigos conceitos de obra artística, de texto e de autor; as novas tecnologias facilitam a composição e a exposição de livros. Como resultado, os romances, contos e poemas se fazem amiguinhos da crônica, que começa a reinar com sua pegada memorialista, autobiográfica e com seu investimento simbólico no entorno sociocultural.
Além disso, qualquer pessoa se sente à vontade para escrever e publicar, sem temer ser aquilo que o poeta Pound, com uma pontinha de malícia, chamava de “diluidores”, “escritores sem qualidades excepcionais” ou “beletristas”. Basta ver o dilúvio de pequenas editoras e de livros publicados e as tendências das premiações literárias dos últimos anos.
Vários fenômenos se juntam a esse rol de mudanças. Entre eles, a influência do capitalismo (em qualquer sentido do capital) e a indiferenciação cultural. A ambos se devem certos usos atuais de imagens de livros, sobretudo nas redes sociais, que parecem mais interessadas em capas, cores e quantidade de que em conteúdos, ideias ou formas da narrativa. Faz parte das circunstâncias e do ar do tempo. Mas dá para pensar. Afinal, são razões que põem a literatura a serviço de ações mais ligadas à comunicação, à sociologia e à ideologia de que a seu próprio universo.